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Interceptor (2009) a.k.a. Zapreshchennaya realnost

Desenganem-se aqueles que pensam que o filmezinho de acção brainless  em que toda a lógica é retorcida de modo a que a narrativa possa ser reencaminhada para um sem fim de lutas e proezas físicas de duvidosa credibilidade é um exclusivo do cinema de Hollywood. Todos os países têm os seus “filmes de porrada e explosões” para entreter esta grande comunidade de barrascos que habita entre nós. Assumir que se fez um filme brainless é nobre, mas querer fazer passar uma obra monolítica por um épico intemporal injectando mitologia nonsense é uma armadilha narrativa em que os russos caem sempre. Efeito secundário: transforma-se um “murro e balázio neles” numa comédia involuntária capaz de criar um Ed Wood instantâneo.

Os russos têm capacidade de fazer um filme de 5 milhões de dólares parecer de 100 milhões pelos standards americanos. Têm também jeito para o bullet time e toda a estética Matrix. E apesar da capacidade que os russos têm de criar aquele feeling de blockbuster nos seus êxitos comerciais, dos seus efeitos especiais muito decentes ou das cenas de acção complexas de envergonhar qualquer mestre do wire-fu americano, há qualquer coisa que falta no cinema mainstream russo. Essa “qualquer coisa” é uma narrativa coerente e, acima de tudo, universal. Quando se aspira à world domination em qualquer área, há que criar valores universais que o mundo dominado compreenda.

Este filme é um caso de estudo desta falha. A história é bastante linear: soldado de elite é traído. Toda a gente pensa que morreu, mas na realidade está numa ilha de pescadores zen a desfrutar da simplicidade da vida (como o Rambo no início de cada filme, antes da carnificina desumana). Mas alguém o chama porque um plano de uma corporação demoníaca prevê a escravização da raça humana pelo uso de uma nova tecnologia inovadora (o normal, portanto!). O nosso herói vai lá, pontapé aqui, mortal empranchado ali, rajadas de metralhadora acolá e acaba por derrotar sozinho a organização que controla o mundo. No fim fica com a gaja, mas apesar dela implorar para ser montada como uma égua selvagem, o herói demonstra ter disciplina capaz de ignorar os prazeres da carne. Linear, carregado de clichés, de fácil interpretação. Mas eis que no meio desta simples (mas honrada) estória aparecem deuses (de túnica branca) a controlar os humanos, imortais com animais místicos e semi-deuses na Terra a fazerem o interface humano-deus e também, claro, a arrear fortemente na malta. Fica mal, complica e irrita.

Deixo o trailer porque sei que muito dificilmente algum de vós lhe ira pegar. Podem sempre rir-se das piadas…

7 Comments

  1. Um outro belo exemplo é a saga Night Watch + Day Watch, de Timur Bennão-sei-quê… Pensado como uma trilogia, contudo a 3ª parte nunca mais chegou. E é uma pena que eu adorei muito o 1º filme.

  2. “Todos os países têm os seus “filmes de porrada e explosões” . Todos? Os portugueses são tão incipientes que acho que nem estão a este “nível” 🙁

  3. LOL tens o “Contrato” do Nicolau Breyner. Tinha a Cláudia Vieira nua, porrada e uma explosão feita em After FX.

  4. Os filmes do Fragata, bons ou maus, podem ser considerados acção. O Zé Gato tinha umas correrias, tiroteios e um Renault 5 a capotar. Há também aquele que nunca vi, o 100volta, que deve ser bem involuntariamente divertido. Mas não, não existe tradição na nossa nação.

  5. eish… o trailer impressionou-me
    bastava fazer uma dobragem para inglês e triplicavam o box office.
    não falo em meter actores americanos, porque o cachet de apenas 1 ultrapassava todo o orçamento do filme

  6. Os russos, em geral, ainda sao aquele pessoal que nao consegue compreender o que é xunga e o que nao é…
    Btw, algumas cenas desse trailer fizeram-me pensar imediatamente num certo videojogo, e nao me admirava nada que se tivessem inspirado nele pra alguns pormenores (mas so poderia julgar se visse o filme). Estou a falar das cenas pretas, tipo veias densas, que explodem de um gajo no trailer (minuto 1:47). O jogo de que falo é o Prototype:
    http://www.youtube.com/watch?v=wbJn3WP1sdk&feature=response_watch

    Mas poderá apenas ser uma coincidencia.

  7. Uau! O “Contrato” tem explosões?! Vou já “alugar”! E quê? Gajas nuas? Uau Uau!!

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