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Inception (2010)

Já dizia Freud “Ama a tua mãe como a ti mesmo”, ao criar a associação entre os sonhos e a masturbação. Os sonhos, esse mistério da mente humana, tão banais quanto complexos. Todos os temos e, convenhamos, todos os analisamos. Desde as fantasias eróticas às premonições apocalípticas, os sonhos são o terreno mais fértil da mente. Nem é preciso nenhuma aptidão intelectual nem esforço, pelo contrário, basta adormecer. Inception é uma visita guiada a este maravilhoso mundo, aos seus níveis e sub-niveis, à negação das leis da física e do vale tudo. Christopher Nolan, o ilusionista de Hollywood, é o homem indicado para nos demonstrar a dinâmica dos devaneios da mente humana e como piratear as nossas memórias mais preciosas. Spoilers em barda, ficam já avisados.

Christopher Nolan, mais do que um simples realizador, é um engenheiro cinematográfico. Não se limita viver na bolha do auto-culto à espera que os espectadores bebam da sua arte e a amem. Também não é propriamente um tarefeiro. O que ele faz é uma hábil mistura de cinema inteligente, narrativas com substância, personagens complexas e depois embrulha tudo em fogo de artificio, efeitos especiais e todos os clichés do cinema de acção para garantir a aderência entre todas as classes demográficas de público, desde o labrego tunning do Fiat Punto azul até ao paneleiro do Jornal de Notícias que usa abundantemente a expressão “sinergia criativa”.

Tecnicamente é um filme a roçar a perfeição. Não sei se terá o mesmo efeito ao ser visto numa televisão, porque o excesso de efeitos especiais costuma resultar mal ao ser transposto para DVD. Fotografia personalizada para os vários níveis, montagem adaptada ao nível de confusão /perturbação de cada ponto e a vertente sonoro perfeitamente sincronizada com o resto. Fez-me lembrar Insomniac, filme também do próprio Nolan, onde ele usava a fotografia e os movimentos de câmara para passar ao cinéfilo a sensação de ter insónias profundas. Nolan sabe usar estes recursos sabiamente para ajudar a contar uma história, apesar de toda a estratégia de marketing do filme se basear pesadamente na parte dos efeitos especiais (além do Leonardo, claro!).

Na realidade não se trata de um filme complexo, é apenas um filme com muito conceito a ser disparado rapidamente, basta apenas estar com atenção para perceber. A inclusão de matérias psicológicas e psiquiátricas relacionada com os sonhos ajuda a compreender o meio em que os nossos personagens se movem, sejam verdades científicas ou apenas palha psicossomática. Não sei, não sou psicólogo. Pensei nisso, mas em boa hora mudei de ideias. Bom, elementos psico-somáticos à parte, é uma bela maneira de passar duas horas e meia.

Mas Nolan não faz apenas um filme para ver e esquecer, nada disso. Da escola de J.J. Abrams pede emprestado o conceito que é criar ambiguidades, múltiplas interpretações. Criar um frenesim offscreen, mesmo depois do filme ter acabado. Neste caso ficam algumas dúvidas e as teorias florescem como cogumelos em mata fértil num dia de orvalho outonal. Será tudo apenas um sonho do personagem principal? A cena final é convenientemente ambígua. Mas não há resposta para essa questão, porque é essa a intenção. Certamente que uma segunda visualização invocará elementos novos, ricos em teorias novas para o esfomeado paranóico que há em cada um de nós. É assim que se cria um culto.

Leonardo DiCaprio parece ter sido feito para este tipo de papéis. Amargurado pela vida, em constantes batalhas existenciais, esposa morta por sua culpa. Pensando bem poderíamos estar perante o mesmo personagem de Shutter Island e até, com algum jeitinho, perante a sequela desse mesmo filme.

A inclusão dos fantasmas emocionais está muito boa. A esposa, sob a forma de virus, de inimigo. Os níveis de consciência, sonhos dentro de sonhos, são temáticas que aprecio. No entanto na profundidade dos sonhos não se espelham os conceitos psicológicos inerentes a esses mesmos estados. Era de prever alguma diferenciação de nível para nível, mas parecem ser apenas mais sonhos genéricos. Apesar de um parecer um bocado fora de contexto, apreciei o nível da neve. Uma mistura do ambiente “Empire Strikes Back” com o raide rebelde de “Return of the Jedi” sem Ewoks.

Mas há coisas que não apreciei.O limbo! Um espaço de consciência partilhado? Não!!!… Daqui até ao esoterismo, misticismo e teorias New Age é um saltinho irritante. O uso abusivo de tiroteios, explosões e violência desnecessária demonstra que a única maneira de Nolan conseguir criar este filme foi ceder nesse campo e tornar o filme mais apetecível comercialmente com “tiros, bombas e murros nas trombas”. É perfeitamente idiota a segurança dos sonhos sob a forma de um exército particular. Além disso o revivalismo de Matrix também me deixou particularmente excitado.

Provavelmente haveria muito mais para dizer, porque este filme merece uma abordagem mais profundo do que o habitual. Ou talvez seja essa a ilusão que Nolan criou e Inception seja na realidade um filme banal untado em banha de porco para dar um efeito mais profundo. Só uma segunda visualização no canal Hollywood daqui a 4 anos poderá decidir esta contenda. Até lá que não nos doam os dente…

13 Comments

  1. “a aderência entre todas as classes demográficas de público, desde o labrego tunning do Fiat Punto azul até ao paneleiro do Jornal de Notícias que usa abundantemente a expressão “sinergia criativa”.” LOL

  2. Agora a sério. Adorei este filme e apesar de o ter visto há semanas ainda não consegui esquece-lo e compor uma critica com mais que dez linhas 😀

  3. Sou só eu a achar que este Inception é, no fundo (e muito superficialmente tambem), uma especie de clássico filme de “assalto ao banco” com uma pintura diferente? Ainda estou pra encontrar quem partilhe desta opiniao, mas enquanto via o filme foi sempre essa a sensaçao que tive. Pelo menos os elementos estão lá todos: O ultimo grande trabalho pra depois finalmente deixar o meio; reunir e recrutar os melhores elementos para formar a equipa perfeita (cada um com o seu skill especifico); planear o “assalto”, aparentemente perfeito e sem falhas; e finalmente a execuçao do assalto, com os seus twists e imprevistos inevitaveis que obrigam a alguma improvisação por parte dos assaltantes (e poderia falar ainda de mais caracteristicas tipicas do género, em particular na personagem de Dicaprio).
    Com isto não digo que o filme seja mau (tal como explico no meu comentario no meu blogas) …apenas estranho é que, aparentemente, mais ninguem tenha reparado nisto e/ou tenha a mesma opiniao.

  4. Leinad, eu não falei nisso mas enquanto via o filme pensei que era estrutura de um Heist movie. Aliás, nos foruns do IMDB fala-se nisso e até muita gente se refere ao objectivo deles como um Heist (o tal assalto ao banco).

  5. Pois, eu nao frequento foruns do IMDB nem leio muitos comentarios em geral nas nets. Depois admiro-me de nao encontrar opinioes parecidas ás minhas…

  6. É claro que no fundo o filme é apenas mais um Heist movie Leinad, mas ninguém pode negar que o faz de uma forma bastante original, sempre com bastante engenho de forma a fazer-nos ficar agarrados à cadeira a “salivar” por mais…
    Não é o melhor filme da história mas que é um dos melhores deste ano disso não tenho dúvidas! =)

  7. Uma tímida mas boa review. O Inception é uma espécie de mistura entre Ocean’s eleven, Matrix e Total Recall. É um excelente filme mas há nitidamente um hype desproporcionado que se deve principalmente à falta total de criatividade e ambição no Hollywood de hoje em dia. Ao contrário do que é muitas vezes dito o filme é muito pedagógico sobre o seu conteúdo sendo que a primeira parte do filme é um tutorial particularmente eficaz das regras da “Inception”. Para evitar complexidades o filme escolhe aliás muitas opções de facilidade: fora Leonardo Dicaprio as personagens são psicologicamente estéreis, o controlo da tecnologia não parece ter qualquer impacto social e a justificação económica é um argumento demasiado frágil que nunca é confrontado com a sua falta de deontologia, o surrealismo próprio aos sonhos não existe e o filme contenta-se com cenários urbanos e vestuários saídos da revista GQ… Por causa dessas fraquezas penso que o filme não terá um impacto tão duradouro como o Matrix pois falta-lhe profundidade. Os mais viciados poderão sempre tentar descobrir a “verdade” essa não passará de uma tentativa desesperada de prolongar o prazer… O realizador não tem nitidamente qualquer realidade secreta ou preferência (ao contrario do Total Recall que fornece indícios indiscutíveis sobre a visão do realizador sobre a obra de P.K.Dick).

  8. Adorei a parte dos xunings do punto azul. Lol.

    O Sr Nolan, infelizmente, trata todos os espectadores como se fossemos todos uma cambada de putos de 16 anos oriundos dos states. Detestei o facto de antes de qualquer coisa acontecer tinha que haver uma explicação, não vá estes ignorantes que nem sabem quantos estados existem no USA não perceberem bem o que queremos, também achei o argumento muito frouxo e mais do mesmo. A banda sonora é fantástica, mas só até se descobrir que afinal é:

    http://www.wimp.com/inceptionconstructed/

    Incrível…

    Mas a nível visual é muito bom, mesmo a parte do limbo que não te agradou, mas visualmente é fantástico, fotografia, efeitos, enfim, tudo o que os olhos comem.

    Não posso deixar de concordar com o Leinad, mas não me tinha ocorrido. Realmente é mais um Bank Job.

  9. Cum carago, pois foi! Banda sonora ripada e desonesta.

  10. Hmmm, se estão a falar da música ser da Edith Piaf, não me parece que isso fosse segredo. Essa música é muito famosa. Na altura até comentei a coincidência que era o filme ter a música da Edith Piaf e ter a Marion Cotillard que já fez dela.

  11. A banda sonora não foi ripada, foi deliberadamente inspirada no tema original.
    Pessoalmente, considero a OST fabulosa.

  12. Pois, quando uma coisa gira vem embrulhada em papel de blockbuster com efeitos especiais aos montes torna-se complicado perceber exactamente o que saiu dali. Eu quando o acabei de ver pensei ” Gostei muito, gostei mesmo muito”. PAssado uma semana ainda andava com aquilo na cabeça e as cenas de psicologia e mitologia que para lá há a tentarem fazer sentido na cabeça e pensava ” É, gostei muito, mas mesmo muito”. Agora a escrever isto e após ler a tua crónica dei outra vez comigo a pensar no filme e o que pensei foi “Definitiavemente gostei mesmo muito”. E gostei mais do que do MAtrix (que cada vez gosto menos, particulrmente depois de ter descoberto que era uma cópia descarada de uma BD chanada The Invisibles, BD essa muito mais interessante). E não acho que o Nolan explique tudo como se fossemos putos de 16 anos americanos, não achei neste e o gajo que fez o MEmento nunca pode ser acusado disso. Também não o vejo de todo como um Heist movie, para mim foi mesmo um filme sobre obsessão e redenção (real ou apenas virtual será ao gosto de cada um). É, gostei mesmo muito deste filme que para mim foi muito mais do que aquilo que parecia ser. “A inclusão de matérias psicológicas e psiquiátricas relacionada com os sonhos ajuda a compreender o meio em que os nossos personagens se movem, sejam verdades científicas ou apenas palha psicossomática. Não sei, não sou psicólogo.” Pois, eu sou e não foi a cena dos sonhos que bateu, foi mesmo o personagem principal e a angústia dele, a cena à la orpheu. Pronto, estou a perder a coerência e vou parar. Resumindo, gostei mesmo deste filme 😀

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