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A Complexa Arte de Sugerir um Filme

escolherfilme

A premissa pode à primeira vista parecer simples . Para o cidadão comum, o homem de família calejado pela labuta do dia a dia, é só apontar e dizer “vamos ver este”. No entanto este ato encerra em si a mais vil das falácias, qual besta de sete cabeças que tão depressa nos dá o poder como de seguida nos destrói nas fornalhas do inferno da condenação pública. É nesses momentos, perante dezenas de dedos furiosos que acenam violentamente na nossa direção, quando o escárnio de uma multidão irada clama pela nossa alma, é aqui que desejamos ter ouvido o nosso colega bêbedo que no início disse “Não escolhas esse, porque esse é uma merda!”.  Sugerir um filme a um grupo heterogéneo de pessoas é como uma experiência científica que envolva explosivos, parece verdadeiramente divertida e promissora até alguém perder uma vista.

As coisas começam a correr mal cerca de 15 minutos depois de começar o filme. Há sempre uma namorada de um amigo que começa a bufar. Normalmente uma criatura execrável que o nosso amigo apenas mantém pela qualidade do felácio. O nosso amigo sente-se desconfortável e acaba por apoiar a sua enjoada companheira com receio de represálias conjugais. Depois outros começam a concordar, que é realmente um filme parado (ou excessivamente idiota) e que se calhar podia ter sido má opção. Por muito mau que o filme seja, mesmo que nos inspire tendências suicidas ou um fluxo de regurgitação contínuo, percebemos que temos que lutar por ele. “Este foi o filme que eu escolhi, quer queira quer não a minha capacidade de escolher um filme não irá ser posta em causa por um grupo de energúmenos com ligeiro retardamento mental (e social). Irei puxar de todos os meus argumentos que, caso falhem, culminarão num sonoro: PUTA QUE VOS PARIU A TODOS MAIS O VOSSO GRUPO DE FÃS DO ROQUE SANTEIRO, CAMBADA DE PUNHETEIROS  E VACAS LEITEIRAS”. E com isto chega aquele silêncio desconfortável que dá a entender que, provavelmente, esta noite já deu o que tinha a dar.

Sim, é certo que não existe maneira de equilibrar esta equação, até porque a estupidez humana é difícil de quantificar objectivamente, seja a estupidez de se ter mau gosto cinematográfico ou a estupidez de pensar que as pessoas vão gostar todas do mesmo filme e, coincidentemente,  do mesmo filme que nós. Mas há guidelines que ajudam a manter alguma integridade. Um filme popularucho a puxar para o brainless blockbuster está fora de questão porque deita abaixo a nossa reputação, um art-house de profundo significado implícito e uma busca pela espiritualidade de modo (geralmente) involuntário causa espasmos de dor a todos, um filmão de terror de extrema violência faz as gajas retraírem os lábios da vulva ao estado de “fechado por alguns dias, talvez semanas” e um clássico intemporal adormece dois terços da plateia. Comédias românticas é uma opção que devem varrer para baixo do tapete.  Ficção científica só se quiserem ser apedrejados no meio de gritos “Mortes aos virgens” e se optarem por cinema português teria sido mais sensato atarem uma corda a um candeeiro e a outra ponta em volta do pescoço e depois chutar a cadeira que vos suporta e aproveitar os últimos 12 segundos de vida a esgalhar o pessegueiro com a chamada “auto-asfixia erótica” que está tão na moda para os lados do cemitério da Conchada.

Nunca me irei esquecer de um dia em que umas colegas do liceu apareceram em minha casa a pedir um filme para verem numa tarde sem aulas. Emprestei-lhes uma cassete VHS que tinha na estante com o rótulo “O Sabor do Amor”. Era a única coisa que não envolvia cabeças decepadas, rajadas de metralhadora ou gangs pós-apocalípticos em VW Carochas convertidos em Buggies de areia. Uns dias depois vi que uma delas fugia de mim e quando me aproximei levei um bofetada na cara de uma gorda enfurecida. Só alguns anos depois percebi o que tinha acontecido. O título original do filme era “Coprophilian Love 3: Eating Ass with a Spoon!”

Execrável

7 Comments

  1. Como percebo. É tao, mas tao complicado escolher um filme pra todos vermos. Sobretudo quando o pessoal que está connosco é parolo (o que, curiosamente ou nao, acaba quase sempre por ser o caso nestas situaçoes).
    Eu acabo sempre por escolher uma comédia meia nonsence indie pós irónica (tipo Nacho Libre, como foi o caso numa recente sessao do genero). O pessoal acaba por se rir dizendo que é tudo tao estupido e parvo mas escapando-lhes por completo todas as referencias que um filme como este parodeia e/ou homenageia (nao percebem o tal nonsense pós-ironico, como eu lhe chamo). E eu pronto, lá me vou rindo também, das mesmas cenas, mas por motivos e com interpretaçoes completamente diferentes. Acabamos todos contentes 🙂

  2. O quão pertinente é este teu artigo, pelo qual avanças pontiagudo e hirto, desfilando cenários de escolhas que na devida medida só falham por teres sido tu a escolher. A regras é esta: um cinéfilo (ou entendido) perante um grupo de não-cinéfilos, composto por uns energúmenos e as suas sopeirinhas jeitosas (por norma, são sim dominadoras dessa magnifica arte do felácio), devem ser eles a escolher o “grande filme” para que a noite não fique estragada.
    Contudo, deixa que te avise que descartar dois géneros infalíveis como os blockbusters e as comédias-românticas, é algo que os fará até pensar que perceberás ainda menos de filmes que eles. E nestes dois géneros existem sempre títulos que se desviam da tonteria para alcançarem aí sim outros níveis mais pertinentes. É que no fim, podes fazer com que todos fiquem a pensar no filme, cujo verdadeiro feel-good aliado à inteligencia dum bom argumento e situações, irá garantir aos teus amigos (temos de ser amigos-dos-amigos) imediatas valentes quecas mal eles abandonem a tua reunião de amigos, que para eles nunca mais acabava (posso-o dizer).
    Depois há outros truques: os filmes têm de ter elencos “entesoasmantes”, pá. Tanto para elas como para nós… mas se elas estiverem satisfeitas, alguma coisa já foi boa da reunião. E aí sim, serão elas que vão sempre defender e pedir que sejas tu a escolher os filmes… culminando em:
    “Ele é mesmo um cinéfilo! Percebes mesmo muito de filmes! És o maior” (isto enquanto se despedem todas molhadinhas das fantasias visuais que lhes desfilaram durante uns 90min…

  3. o último filme que escolhi para ver com um grupo de amigos foi o ‘aquele querido mês de agosto’. tens razão, mais valia ter-me enforcado logo. ainda hoje ouço comentários sobre as músicas e sobre a falta de argumento do filme… para esquecer. mais vale realizar estes experimentalismos cinematográficos sozinha em casa, para não sofrer represálias.

  4. Faltou enunciar nessa lista “Ver o filme de antemão para evitar ser apedrejado enquanto tu próprio te flagelas…”.
    Ainda no Domingo passei por isso quando promovi uma sessão do “Rango” lá em casa…

  5. Acho que bastava sugerires qualquer dos filmes da saga Coprophilian Love, que ficavas sem tema para o teu artigo. Tem acção, tem drama, tem boas performances. Foi feito por amantes do cinema (pun intended) e com baixo orçamento; foge das regras do género (é indubitavelmente um indie).
    Reúne todas as condições para ser uma recomendação universal.

  6. Braindead, nunca falha!

  7. É verdade, Braindead costumava ser também a minha opção. Esse ou o Requiem for a Dream. Mas depois dos 30/35 reparas que todos os amigos que alinhavam nisso já não fazem parte do teu circulo de amigos e é só casais com hopes and dreams incapazes de perceberem raciocínios abstractos.

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