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The Texas Chainsaw Massacre (1974 e 1986)

TCM-1974

Era uma tórrida tarde de domingo, num dos verões mais quentes que há memória. Tobe Hooper, de olhar pasmo e inquiridor, contemplava fixamente uma bela peça de engenharia sueca, um invejável motosserra Husqvarna. Numa mega loja de ferragens, algo que apenas podemos visualizar invocando o nosso imaginário hollywoodiano, o jovem Tobe fantasiava: “E se eu agarrasse nesta bela motosserra e abrisse caminho daqui para fora à força? A cortar estes matarruanos todos à postas até ao parque de estacionamento? E se levasse as postas para casa e desse um belo de um churrascão para a família toda no próximo fim-de-semana?” Ora aqui está uma bela ideia para um filme!”.  E assim foi. Pediu financiamento a uma empresa que mais tarde se veio a revelar ser propriedade da Máfia, juntou um corajoso elenco e equipa e foram para o interior do Texas filmar o primeiro Texas Chainsaw Massacre.

Se há algo mais assustador do que o primeiro massacre de motosserra do Texas é a história da sua filmagem. Desde dedos cortados porque os efeitos especiais não funcionavam até membros da equipa a desmaiar porque o fedor a carne podre nas filmagens de interiores era intolerável. Isto já para não falar da questão do financiamento e dos direitos do filme naquele imbróglio todo do financiamento da Máfia e das subsequentes acções judiciais, tempos em que o jovem Tobe temeu pela vida ao lhe ser proposta uma “soneca com os peixinhos”.

Apesar de todo o aparato e trauma, o resultado foi um dos melhores filmes de terror de sempre. Texas Chainsaw Massacre é um filme cru, visceral, claustrofóbico e desconfortável. Carregado de instintos primitivos como a sobrevivência e o libido, os seres humanos despojados das suas máscaras. Tirando, claro, Leatherface e a sua máscara de pele humana.

Ainda hoje é um filme aterrador e imersivo. Apesar da introdução desonesta (“baseado em eventos reais, blá blá…), torna-se rapidamente numa experiência cinematográfica que ninguém poderá esquecer, seja hoje na sala de estar com uma versão FullHD sacada da net ou em 1974, na sessão da  meia noite num cinema dos Restauradores.

Para que se perceba a gravidade de algumas cenas, este filme foi banido em muitos mercados, sendo que apenas esta década foi aprovado para distribuição na Alemanha com algumas restrições. Em 1974 teve que ser distribuído como Unrated para não obter a temível qualificação de X-Rated. São pequenos pormenores destes que fazem um filme de culto. All Hail!

Era esta a filosofia do cinema de terror do início dos anos 70, o medo, o horror. Passados 12 anos, resolvidos os problemas com a Máfia e já com os testículos livres de ameaças, Tobe Hooper voltou para a continuação de Texas Chainsaw Massacre, o único filme do universo TCM que é directamente relacionado com o original.

Anos 80, Texas. Um nova geração de cinema de terror. Em meados dos anos 80 o cinema de terror era directamente baseado na filosofia “Rock’n Roll all night and party every day” e tudo era caleidoscópico e multicolor, saído de uma alucinação LSD. One liners e chicos espertos, roupas coloridas, chapéus com palhinhas e sítio para colocar as latas de cerveja, jovens vintões de farta bigodaça, carros descapotáveis conduzidos por clones de Tom Cruise e, mais importante, noviças pernaltudas a respirar erotismo com calções de ganga microscópicos. É nesta categoria que se insere Stretch, uma DJ de uma estação de rádio Rock’n Roll com aspirações a jornalista a sério, ainda que nunca abdicando do micro calção a fazer denotar os limites do (glorioso) grande nadegueiro e a camisa atada a mostrar o umbigo.

Neste aparatoso background Technicolor aparece também Dennis Hopper, tenente em busca de vingança familiar com uma relação de amor / ódio com motosserras. E em todos os aspectos esta “sequela” amplia exponencialmente tudo o que caracterizou o primeiro tomo de Leatherface e a sua família canibal.

O problema é que, tal como um altifalante velho, mesmo a boa música distorce ao ser amplificada e o resultado não é necessariamente bom. É, digamos, diferente. Um filme que deve ser visto num acto de pura curiosidade. Os condimentos dos anos 80, para quem gosta. Espampanante e ruidoso. Cenários sobrecarregados, o excesso da ostentação texana e motosserras a mais para sangue a menos.

Não será certamente o filme das nossas vidas, mas invoca saudades do glorioso tempo dos videoclubes e das cassetes VHS. De realçar que tanto a versão Bluray do original como da continuação engrandecem as obras, com os aspect ratios originais, as cores vívidas do celuloide e o som HD para se diferenciar o grito de quem é violado do grito de quem é trespassado violentamente por um motosserra.

E com isto vos deixo. Ide em paz e assim.

6 Comments

  1. alguma palavra sobre o remake de 2003? eheh

  2. Em relação ao remake de 2003 só tenho uma coisa a dizer: nice ass!

  3. Só vi o remake e prequela, mas depois de ler este texto fiquei curioso em relação ao primeiro.
    Essa historia da máfia estar metida ao barulho é verídica??

  4. Sim,é tudo verdade. Podes ver alguns destes tópicos na secção de trivia da imdb.

  5. Esse 3D 2013 é horrível!O curioso é que em todos os que Tobe Hooper esteve na direção,foram usadas motosserras da marca Poulan…Já os 2003 e 2006 usaram Husqvarna 359XP…

  6. Poulan não é uma marca da Husqvarna?

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