Pensei que talvez fosse demasiado cedo para entrar na sala de cinema porque ainda lá estava o senhor com o carrinho das calças. Um funcionário que existe só para sessões deste filme que coloca todos os pares de calças, creme hidratante de mãos Hidrapirilau e comprimidos para hipertensão arterial esquecidos numa carreta que depois vai diretamente para o incinerador. Mal me sentei, escorreguei para a frente e fiquei no chão. Com a cara colada ao banco da frente, enfiado numa gosma parecida com as vítimas dos xeromorfos armazenadas antes de consumidas. Mudei de lugar e, com ajuda de uma lanterna de ultravioletas, lá encontrei um lugar relativamente seco. Sentei-me. Começam a entrar mulheres em grupo de 8 e 10. Ouve-se barulho de escorregarem das cadeiras e ficarem presas na gosma do banco da frente, uma galhofeira pegada.
Não serei a pessoa com a sensibilidade mais afinada para falar deste tipo de filmes, mas vamos lá tentar. Ora, A Criada é um livro de 2022 que foi um sucesso de vendas. Sendo eu a única pessoa na Europa que ainda não o leu, fiquei surpreendido com o conhecimento profundo existente em Portugal relativamente a este tema. Como se toda a gente tivesse “feito a sua própria pesquisa” para se inteirar deste fenómeno cultural que é A Criada.
Uma jeitosa de fartos seios procura emprego para tentar resolver alguns problemas pessoais que a atormentam. Ser criada em regime de internato parece perfeito. Não ter que pagar renda, comida e roupa lavada, telemóvel de última geração, enfim, o sonho. Até que a patroa começa a avariar com comportamentos erráticos e o patrão começa a arrastar a narsa na sua direção. Mas enfim, o que são meia dúzia de chatices menores perante este maravilhoso emprego?
Entretanto, qual seleção andaluza de fandango, o guião começa a dançaricar em volta de nós cinéfilos, puxando sempre ao twist, nunca temendo ser pateta e parvo. A ainda bem, porque assim não tem que se sentir mal de ser pateta e parvo. E é uma pena a vergonha ter passado de moda, porque assim temos que gramar com este filme.

Além desta narrativa que parece um jogo de pacman, dos que perdemos por incapacidade de manter a vantagem em relação aos fantasminhas, o filme também não se decide entre mostrar a trama e meter uma personagem a narrar as partes que seria uma chatice fazer condições. Narra um, depois outro, mais um bocado e já se desistiu e está toda a gente a narrar. Sempre sem lógica nem sentido para a narrativa. Só porque há um desafio no guião e opta-se pela narração.
Também senti finalmente o que querem dizer as pessoas com “O Nolan não sabe escrever personagens femininas”. Porque acontece aqui neste filme, mas com um homem. Ora este malandro, menino da mamã, com traços de violência sem sentido na sua personalidade, como se fosse assim só porque sim, sem grande construção de personagem além do clássico “homem mau, cuidado porque parece bom no inicio. Alerta homem tóxico.”

As protagonistas fazem o que lhes é pedido. Sydney muito sonsa sempre desorientada a precisar de um salvador, excepto no final quando o seu Rambo interior desperta, Amanda Seyfried tenta uma performance complexa na sua psicose e vulnerabilidade mental, mas neste filme é preciso ser tudo muito denunciado e sublinhado com setas a apontar para as pessoas perceberem. Então faz a sua performance de Gena Rowlands em A Woman Under The Influence, mas num registo Peça de Teatro do 10º C. Grita, esbraceja e faz maneirismos teatrais amadores. E depois falta ainda o jardineiro, o turco do eterno pau feito da trilogia 365, aquela morenão que cospe ostensivamente na mão para depois passar a palma no rego da sua senhora toda amassada contra uma parede feita inteiramente de vidro num apartamento no 56º andar em Ankara. Intensidade é amor no mundo da literatura pagã para sopeiras aborrecidas. Este jardineiro, curiosamente, desaparece lá para o fim como se se tivessem esquecido dele ou não soubessem bem que destino lhe dar. Além disso é claramente o pior jardineiro de sempre, que e vejo-o sempre parado a olhar com uma enxada na mão e nunca verga a mola para apanhar uma erva daninha que seja.
É uma obra de ficção criada como uma fantasia de vingança por parte de uma pessoa privilegiada que, felizmente, nunca correu grandes riscos.
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A Sydney, brevemente, merece entrar na secção “peitinhos da quinta”
Já entrou:
https://cinemaxunga.net/blog/2025/06/05/sydney-sweeney-peitinhos-da-quinta/