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The Wizard of the Kremlin (2025)

Poderemos verdadeiramente escrever sobre um filme no qual adormecemos cinquenta por cento da sua duração? A resposta é sim, desde que a causa do adormecimento tenha sido o facto de o filme produzir um efeito sonífero capaz de aniquilar um cavalo, e não porque estamos realmente com sono. E neste caso, arrisco-me a dizer que existe carga sedação equina para pelo menos duas manadas de cavalos selvagens.

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Lee Cronin’s The Mummy (2026)

Recentemente estreou A Múmia de Lee Cronin, um filme que, logo à partida, foi obrigado a agrafar o nome do realizador no título para que a malta perceba que isto é uma obra de distinta filigrana com assinatura em cama de veludo e não apenas mais uma bosta semi-liquida fumegante saída do “Dark Universe” dos monstros da Universal. Esse universo cinemático que tem andado por aí às voltas com falhanços atrás de falhanços, a começar pela versão de A Múmia com o Tom Cruise de que, felizmente, já ninguém se lembra.

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Faces of Death (2026)

Nos anos 80, havia uma cassete mítica que estava envolvida numa névoa de lenda, que era o Faces of Death. Era meio cassete normal, meio lenda urbana, em que os miúdos sussuravam entre si, sempre em secretismo nervoso, acerca do filme. A lenda dizia ser uma sequência de clips de pessoas, a morrer mesmo mesmo a sério. Como ninguém tinha visto ainda o conteúdo, especulavam-se as coisas mais bizarras de sempre: pessoas a serem comidas por crocodilos a infelizes a caírem do avião sem paraquedas e espalmarem-se no chão à frente do cameraman.

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Iron Maiden: Burning Ambition (2026)

Corriam os primeiros anos da década de 80 quando eu, num dia bem passado a explorar as lojas de discos, ou “discotecas” como eram chamadas, dei de caras com umas capas que me deixaram impressionado. Pertenciam a uma banda de heavy metal chamada Iron Maiden. Como qualquer miúdo fascinado, tentei logo convencer os meus pais a comprarem-me os discos. A resposta era sempre um redondo e pragmático: “Não.” E atenção, não o faziam por serem maus pais. Faziam-no porque, na verdade, cá em casa as finanças não estavam para grandes luxos e os discos eram artigos caros. Rapidamente convenci uns amigos a comprarem os álbuns e pedi-lhes emprestado, num “aluguer de longa duração”. Quem nunca? O objetivo era claro: assimilar a obra e fazer a derradeira comparação para ver se a capa era, de facto, tão boa como o conteúdo. Todos sabemos a resposta, é sim. A partir daí, passei tardes da minha infância a ouvir nova e vibrante música enigmática e a tentar desenhar sem sucesso as capas icónicas. Mal eu imaginava que esses tempos mágicos iriam durar uns bons 35 ou 40 anos. E que, num futuro que então parecia muito distante (em pleno 2026), eu continuaria com o mesmo entusiasmo. Só que agora, acompanhado pelo meu filho.

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Cold Storage (2026)

Os filmes de zombies deviam ter a sua própria árvore genealógica, um ramo independente de todo o resto do cinema. Podemos pegar em qualquer filme que exista e aplicar-lhe um arco narrativo de mortos-vivos e o filme ficaria inalterado. Imaginem o Titanic, a bordo aparecia uma infeção e o barco começava a ser atacado por hordas imensas, focadas na obliteração de toda a carne viva. O navio batia no iceberg na mesma e a partir daí tínhamos o mesmo exato filme, com a vantagem de ser bom e todos aqueles zombies ficarem a boiar, ao estilo de Guerra Mundial Z, até chegarem a terra em cima de um detrito e darem origem a uma sequela. Uma daquelas portas onde a protagonista original deitou o seu corpanzil narcisista, deixando o seu amado perecer à agonia de uma morte lenta por hipotermia no Atlântico norte. Estes hipotéticos zombies de uma epidemia a bordo do Titanic podiam perfeitamente chegar à costa de França ou dos Estados Unidos cheia de infetados para continuar a história.

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The Bride (2026)

Ora viva, amiguinhos. Depois de algum tempo ausente, continuo a sentir necessidade de falar para o vazio, de partilhar as minhas opiniões irrelevantes convosco e com o mundo (e com os milhares de bots de IA que andam na net a catar o que as pessoas dizem para construir modelos de machine learning e algoritmos de mau cinema). Hoje quero falar-vos do filme The Bride que, na minha cabeça, estava muito ligado a uma tentativa de aproveitamento do sucesso com aquilo que se andava a falar do Frankenstein do Del Toro. Um aproveitamento cultural quase ao estilo Asylum/Syfy.

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The Housemaid (2025)

Pensei que talvez fosse demasiado cedo para entrar na sala de cinema porque ainda lá estava o senhor com o carrinho das calças. Um funcionário que existe só para sessões deste filme que coloca todos os pares de calças, creme hidratante de mãos Hidrapirilau e comprimidos para hipertensão arterial esquecidos numa carreta que depois vai diretamente para o incinerador. Mal me sentei, escorreguei para a frente e fiquei no chão. Com a cara colada ao banco da frente, enfiado numa gosma parecida com as vítimas dos xeromorfos armazenadas antes de consumidas. Mudei de lugar e, com ajuda de uma lanterna de ultravioletas, lá encontrei um lugar relativamente seco. Sentei-me. Começam a entrar mulheres em grupo de 8 e 10. Ouve-se barulho de escorregarem das cadeiras e ficarem presas na gosma do banco da frente, uma galhofeira pegada.

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Minecraft Movie, Chicken Jockey e a anarquia da juventude

Estava no letterboxd a ver listas dos filmes mais marcantes dos anos 2020s e apercebi-me que não tinha registado o Minecraft Movie no meu diário. Corrigi a injustiça e lembrei-me do colossal evento que durante duas semanas foi o centro mundial da atenção mediática, o Chicken Jockey. Logo após a estreia, de modo aparentemente espontâneo, começa a criar-se um ritual em volta da cena em que Jason Momoa é atirado para lutar com um boneco frankenstein que pilota uma galinha. De repente essa cena passou a ser o pânico das salas de cinema, com miúdos a atirar comida, bebida e tudo o que conseguiam encontrar num ritual que parecia Portugal aquando do golo do Eder. Desde galinhas vivas a incêndios em sala, parecia que a civilização ocidental estava prestes a acabar. Entretanto passou e agora parece ter sido um sonho febril.

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Together (2025)

O amor é um conceito demasiado complicado para ser processado pelo cérebro humano. É uma emoção? É um comportamento? É um procedimento destinado a criar vínculos? É inato? Aprende-se? Há quem diga que não se pode explicar ou que a partir do momento em que se pode explicar, deixa de existir. É um circuito de recompensa e gerador de dopamina para criar no ser humano a vontade de não se querer matar mal entre neste mundo? Talvez. Mas como diria o poeta “What is love, baby dont hurt me, dont hurt me, no more…”. E é este último conceito poético do impactante mestre do eurodance, o criador de hinos Haddaway, que vamos usar para falar de amor. O amor mais sofrido, mais duro e também mais solidificador de vínculos. Uma força de gravidade imensa que só percebemos existir quando tentamos sair da órbita do objeto amado e não conseguimos. Não há força de escape que nos liberte da atração gravitacional, neste caso o chamado “Poder do Amor”, do objeto da nossa paixão. Mesmo quando pensamos não estar sob a jurisdição da lei da gravitação amorosa universal. Quando percebemos que o ar é apenas respirável na órbita do nosso centro de afetos. Que pode ser um parceiro, podem ser filhos, animais, por vezes dinheiro e objetos ou no caso de Lobo Antunes, uma pedra que um dia irá, eventualmente, amar.

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Jurassic World Rebirth (2025)

Acordei numa sala escura. Uma lâmpada forte apontada cirurgicamente à minha cara. Mal conseguia abrir os olhos, sentia o sabor a sangue na boca e provavelmente meia dúzia de costelas partidas. Tentei falar. Ao fim da primeira sílaba, senti um pulmão pressionado por algo pontiagudo. “Foste tu quem escreveu o texto do Jurassic World Rebirth na página do Sr. Joaquim no Facebook?”. Aflito e assustado pensei que finalmente as consequências estavam a materializar-se na vida real. “Senhor quê? Nunca ouvi falar…”. De repente sinto um choque a percorrer-me o corpo, todos os músculos se mexem violentamente de modo involuntário. Incluindo o esfíncter retal, infelizmente. “Era uma pergunta retórica, óh burro! Sabemos que nem sequer viste o filme. Emprenhas pelos ouvidos só para te armares em espertinho e alguém tem que pôr fim a isso. Tens 3 dias para o ver. Senão voltas para aqui e levas uma segunda volta que não será tão agradável”. Um pensamento relâmpago tomou conta de mim, deixar completamente esta parvoíce de falar de cinema. Não necessito realmente disto para nada, muito menos morrer eletrocutado todo borrado por mim abaixo. “Quem és? Serviços Secretos? ASAE? Polícia Judiciária? Mossad? CIA? Mercenário? Espião MI6?”. Uma gargalhada que me vaporizou uma brisa de má higiene oral na cara. “Não, meu bandalho. Sou o Caló que trabalha de manhã no talho do Alcides. Primo da Gisela da Zouparria, que é recepcionista na Florista Linita. Campeão distrital de dominó”. Ok, pensei. Finalmente o famigerado reconhecimento público.

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Alma & The Wolf (2025)

O cinema de terror tem-se vindo a tornar cada vez menos literal. Nos anos 70 e 80, os monstros eram mesmo monstros, normalmente gerados a partir de fobias coletivas populares. Radiação ou detritos tóxicos que mutavam animais e pessoas, fruto da iminente guerra nuclear que estava sempre ao virar da esquina. Fantasmas e entidades do sobrenatural, oriundos de crenças ainda reais, da bicharada mágica do além. Zombies e sobreviventes de um mundo ríspido, pós-nuclear e pós-apocalíptico. Ou os extraterrestres que, finalmente, vinham cobrar as suas dívidas a este planeta emprestado. Ultimamente, principalmente com o advento da omnipresente A24, começou a materializar-se o processamento do luto e das fobias. As doenças mentais tornaram-se os novos monstros e, como se costuma dizer em tom de máxima galhofa: “os monstros somos nozes”.

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The Phoenician Scheme (2025)

De 2 em 2 anos, mais coisa menos coisa, sai um novo filme de Wes Anderson. Por esta altura já ninguém se pode sentir enganado ao ser confrontado com alguma situação inesperada, uma vez que todos sabemos bem ao que vamos. Paletas pastel absolutamente dominantes, simetria doentia, movimentos de câmara definidos milimetricamente por algoritmos da NASA e, bem, e uma adorável patetice autista, à qual ninguém resiste. Vou sempre de pé atrás, preparado para criticar de modo senil como um idoso retido num lar, refém de donas de casa psicóticas a trabalhar sem vinculo contratual. Acontece, no entanto, que no final gosto sempre do filme e fico também sempre irritado por isso.

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Until Dawn (2025)

Há uns tempos, num episódio do podcast Nalgas do Mandarim, falava com os meus amigalhaços co-apresentadores acerca do fenómeno da última década e meia das adaptações de videojogos para cinema. E, como de costume, elencavam-se argumentos rezingões de velhos furiosos com o avanço dos tempos acerca do tema “No meu tempo é que era bom”. Neste caso de nos anos 80, 90 e inícios dos 2000s, os videos jogos mimicavam os filmes que víamos, o cinema era a força motriz por detrás da jovem, imberbe e imatura indústria dos videojogos. Para quem tem andado distraído nos últimos 20 anos, as coisas mudaram drasticamente. A indústria dos videojogos, principalmente da gama AAA, é lider no entretenimento e o cinema e TV agora adoptam os jogos em blockbusters e séries premium nas plataformas.

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Perfect Days (2023)

Um homem simples e humilde. Ligado a uma rotina espartana, rigorosa. Austera…  O tempo pinga vagarosamente enquanto aprecia os prazeres que o mundo abandonou. Contempla os efeitos da natureza nas obras do homem. Ou a obra de Deus, se formos religiosos. Limpa diariamente as belas retretes de Toquio, sempre atento e completista. Wim Wenders leva-nos pela mão a uma visita de estudo da simplicidade, do abandono dos modos vertiginosos da atualidade em prol de paz de espírito, a bem da saúde mental, enfiado mesmo no centro do furacão dessa mesma vida caótica e consumidora. Um estilo de viver minimalista e analógico. Cassetes áudio e livros de bolso em segunda mão. Um colchão fraquinho que me fez doer as costas mesmo sem me deitar, madrugadas fotocopiadas, uma cópia de uma cópia de uma cópia, curiosamente dos antípodas do Fight Club. 

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The Boogeyman (2023)

Uma família de subúrbio muito feliz. Casa bonita e espaçosa, decorada de modo sóbrio e realista, uma existência idílica quebrada pela morte da mãezinha. “Oh, não! E agora?” Diz o pai aflito que estava tão bem na vidinha dele, afogado em trabalho, confiante nas largas costas da esposa que alombava sozinha todos os afazeres da casa. “Caraças, então, mas agora tenho que tomar conta da… aquela… como se chama? A minha filha e a irmã?” E é neste ponto que começa o filme, afundado na dor da perda e no luto. Luto, esse, que será pela pintelhésima vez personificado numa criatura escondida nas trevas que se alimenta da tristeza de quem não deslarga o osso da inquietação.

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