Há uns anitos valentes, antes de eu próprio ter começado a povoar o planeta com a minha semente, fui visitar uma amiga acabada de ser mãe. Cheguei ao hospital, invoquei em mim toda a exteriorização de felicidade possível e lá fui com uma prendinha na mão para a criança. Provavelmente um item de plástico chinês que iria intoxicar a criança com a tinta de chumbo, mas eu era novo naquelas situações e ninguém ainda queria saber destes problemas de saúde pública que acometiam recém-nascidos. Lá entrei no quarto da maternidade com o meu sorriso estúpido e exagerado. O cenário que encontrei foi muito além das minhas mais deprimentes expetativas. Uma recém mamã a comer um frango churrasco com muito mau aspecto, talvez mais cozido que assado. Comia só com uma mão, sem talheres. A outra mão usava para segurar a cabeça. Cara miserável e deprimida. A criança chorava desalmadamente, dando uso a uns pulmões novinhos em folha, talvez a 110%. A jovem mãe olhava-o de lado com desprezo. “Sacana, cabrãozito que me sugou as reservas minerais. Que me deixou neste estado terminal, como um invólucro usado atirado ao chão em hipótese de reciclagem”. Imagino eu, pela cara. Foi o choque inicial que tive com a maternidade, que nem sempre a injeção de felicidade diretamente no coração faz efeito. Entretanto passaram-se 6 meses e normalizou. Voltou a ter mais uma criança, tudo ok. Mais importante de tudo, nenhum era parecido comigo. Ufa!

Esta intro serve também para intro deste filme. Uma mulher cosmopolitana, recém mãe, escritora prolífica, muda-se da cidade grande, cheia de estímulos e entusiasmos, para o meio de uma zona rural americana, com todos os defeitos que lhe conhecemos porque, bem, porque vemos filmes de vez em quando passados em redneck county. O ambiente não é muito diferente do interior de Portugal, paga-se a paz, o sossego, a entreajuda comunitária, estilo de vida mais barato com exposição social e interação com as pessoas a um nível que deixa sempre os inveterados cosmopolitas desconfortáveis. As aldeias dão e exigem, a comunidade funciona de modo bilateral e requer constantes validações e evidências de que somos também merecedores da rede social que nos rodeia.

É neste tom de “mulher, recém mãe, à beira de um ataque de nervos” que o filme nos insere. Jennifer Lawrence grávida, com um bebé, umas mamas que ameaçam rebentar-lhe a pele, incompreendida pelo seu companheiro , desmotivada e desprovida de esperança num futuro melhor. O marido, Robert Pattinson, incapaz de perceber as suas necessidades, com dificuldades em comunicar e fazer fluir naturalmente a conjugalidade, começa a afastar-se e procurar algum sossego longe do seu conturbado lar. Este afastamento vai criando um estado mútuo de degradação da saúde mental que se agiganta ao longo do filme rumo ao final que se antevê catastrófico.

O isolamento familiar e a incompreensão da comunidade perante a apatia daquela senhora não ajuda a que se levante. Alguns paralelismos estruturais com, novamente, A Woman Under The Influence de Cassavetes. Será esse o standard para o género “esposa incompreendida à beira de um ataque de nervos”.

O ambiente do filme é envolvente e subtil, como se pairasse entre o real e o imaginário, que nos mostra os estados mentais degradados, pelo uso de lentes, efeitos, partículas e ângulos. Esse estratagema estético que não ajuda muito a acompanhar. Apesar desta terceira tentativa de JLaw ao Oscar, a direção de atores não ajuda muito que a se vá safar. Atira em todas as direções, como se tivesse vários tipos diferentes de patologias mentais, todas diametralmente opostas. É pena, pois esta moça tem o potencial de fazer coisas em condições caso seja bem dirigida.

No final acaba por ver a sua mensagem a ser passada, apesar de muito atabalhoadamente. Há sempre a sensação de estarmos a ver algo que vimos imensas vezes antes, mas bem feito. Um isco de Oscar que ameaça fazer mexer as águas dos cinéfilos que só vão ao cinema ver filmes de Oscars, pelo efeito Mandela de os associar a filmes “de qualidade”. A malta do Mário Augusto.

Uma menção honrosa para a banda sonora, principalmente a maravilhosa versão de Love Will Tear Us Apart que encerra os créditos finais. Desafio a que carreguem no stop antes da música acabar. Plot Twist: Não conseguem.


Discover more from CinemaXunga

Subscribe to get the latest posts sent to your email.