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Ágora (2009)

Existe um tema tão poderoso em controvérsia que não são raras as vezes que divida famílias, aldeias, cidades ou mesmo países. Num milisegundo podemos passar do amor fraternal ao ódio supremo. Uma troca de palavras mal calculada ou um item esquecido e uma densa onda de raiva instala-se em permanência. Sim, a troca de tupperwares entre donas de casa é um assunto bastante sensível, mas com pouco potencial dramático além da óbvia tensão lésbica. Por isso mesmo Alejandro Amenábar decidiu pegar no segundo assunto mais sensível para nos brindar com uma nova obra prima. Esse assunto é a religião e as suas atrocidades e o filme é Ágora, uma das sete maravilhas do cinema moderno.

Alejandro Amenábar. Quem conhece este homem não espera nada além da excelência a cada vez que um filme dele estreia. É garantia de qualidade. Sempre dentro do mainstream com intenções comerciais mas sem comprometer a sua liberdade artística e criativa. Além de todas estas características como realizador é ainda capaz de produzir um filme espanhol e aproveitar o preconceito cinematografico mundial para o comercializar como americano. Já o tinha feito com sucesso em The Others e volta a fazer o mesmo aqui. O quê, o The Others é espanhol? É meus amigos, é!…

Àgora é passado nos tempos áureos de Alexandria e da sua majestosa biblioteca, que à altura era o maior tesouro cientifico da humanidade. Mas os tempos estão conturbados. O Cristianismo começa a ser tolerado pelo império romano e a pacífica coabitação entre religiões aproxima-se de um abrupto final violento e sanguinário. Judeus não se entendem com cristãos, pagãos não vão à bola com judeus (nem cristãos) e aqueles que acreditam em deus(es) não compreendem muito bem como se pode ser ateu ou acreditar apenas na ciência. E é aqui que encontramos Rachel Weisz no fantástico papel de Hypatia, uma filósofa que tenta desvendar os segredos do cosmos no meio deste caos antropológico. De notar que apesar das inevitáveis alterações narrativas e da necessidade de comprimir um século em meia dúzia de anos, o filme conta-nos uma história verídica.

E como é óbvio, as coisas não acabam nada bem. Num dos primeiros exemplos de intolerância religiosa documentados da História, o maior tesouro da humanidade, a biblioteca de Alexandria,  é barbaramente destruído às mãos de uma sociedade mais preocupada em saciar a sua barbárie preconceituosa à sombra de umas escrituras de interpretação livre do que apoiar o conhecimento, a lógica e a ciência. E desde então até aos dias de hoje as coisas não mudaram muito, diga-se de passagem.

Um poderoso filme que bebi de um trago com imersão total. Além da própria riqueza de personagens, temática e narrativa, é também tecnicamente um filme superior. A reconstrução da cidade de Alexandria enevoada e empoeirada, a criação de um ambiente verdadeiramente foto-realista, sem dar show-off. De sublinhar os fantásticos planos aéreos, da maneira como os astros olham para os mesquinhos humanos e as suas guerras ridículas, a mostrar que para o cosmos a presença de humanos numa rocha que faz elipses em volta de uma pequena estrela é um flash quase imperceptível na História do Universo, um freeze frame entre dois batimentos cardíacos.

2 Comments

  1. isto não é a parte do meio de um trilogia iniciada com o Ántes, e terminada com o Dépois?

  2. Tive um azar do caraças porque quando quis vê-lo no cinema, tinha acabado de sair de cartaz nessa semana… Resta-me comprar o DVD espanhol…

    Sou um fã acérrimo de Amenabar e gostei que tivesses gostado deste Ágora. Apetece-me agora ainda mais vê-lo.

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