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The Fog (1980)

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Sou orgulhoso proprietário de uma versão do The Fog em VHS. O valor de compra, depois dos respectivos ajustes para o nível de vida atual, é quase pornográfico e o seu estado à altura da compra já era de relativa decomposição. Era uma cópia (original, oficial e carimbada) de um clube de vídeo.  Não é uma edição normal, como aquelas dos últimos tempo do VHS. É uma edição especial, capa de grande formato, almofadada, com bordo debruado e tons de dourado pintados por cima da capa. Um vez aberta tem o logotipo da editora por dentro e o rótulo principal da cassete é rico em prateados da mais pura  filigrana tipográfica. Qualidade de imagem, uma merda, qualidade de som, phunf, phunf, phunf. E eu amo-a assim, em toda a sua imperfeição.

Num ataque de nostalgia meti a cassete dentro de um velho VHS que mantenho por razões meramente decorativas (o típico sótão retropunk para trintões) e carreguei no play do controlo remoto. Não funcionou. Pilhas gastas. Coloquei novas pilhas e voltou a não funcionar. Pressionei com tanta força que o botão ficou com a unha marcada. Obtive resposta do lado do velho videogravador. Swisiiish. Silêncio… Uma sucessão de sons mecanizados de alta precisão e finalmente a cassete começou a rolar. Tempo desde que é pressionado o play até passar o filme: 6 segundos. Aviso, trailers e animações corporativas. E começa.

Um velho marinheiro conta uma história de fantasmas a um grupo de crianças. Créditos iniciais. O filme propriamente dito começa, mas o formato 4:3 incomoda-me. As cores embaçadas, os problemas de tracking e a alta fidelidade sonora de que tem dois pares de meias enfiados na boca não ajuda nada. Não se distinguem as formas de Jamie Lee Curtis e isso é onde a minha paciência se esgota. Arranquei a cassete de dentro da baía do VHS, enfiei-a na capa, desliguei o cabo elétrico num ataque de fúria e fui à procura de um BDRip com 720p de resolução mínima.

Restart. Como acordar de um coma prolongado e ver o mundo com outros olhos, passar de uma cópia VHS de aspect ratio 4:3 para  um glorioso 2.35 : 1 (panavision anamorphic widescreen) com cores vibrantes é como ver outro filme. Apesar do super baixo orçamento, Carpenter caprichou na fotografia e temos um filme visualmente hipnótico, seja nas paisagens marítimas noturnas, na cidade adormecida ou mesmo no nevoeiro e na maneira como aquilo que não se mostra pode assustar a um nível mais visceral do que o explícito.

The Fog é um fabuloso filme, um horror movie com alma que passa o teste do tempo e brilha como nunca graças à revitalização do formato HD. É um história relativamente simples e de andamento lento, que foca a narrativa no relacionamento e nas reacções do grupo de personagens em vez de se dedicar à parte paranormal do filme. Um Carpenter de paragem obrigatória.

Um filme carregado de carisma que não é para o jovem cinéfilo à procura de emoções fortes e a ocasional tripa ensanguentada de fora. Aliás, quando eu era um jovem inconsciente e borbulhento cinéfilo andei bastante tempo a evitar ver o The Fog. Porquê? Porque estávamos no ano de 1986 e este era um filme de 1980, logo um “filme velho”. E com tanto gore ou slasher movies de 1984, 1985 ou 1986 porque haveria de ver eu um filme medieval acerca de algo tão interessante como uma praga de nevoeiro? E ainda por cima sem a indicação de uma cena de sexo ou um mísero par de mamas? Puto do carago…

Há um remake, nunca o vi. E o meu desejo é que caia a gaita de lepra a todo o talego que ache que fazer um remake de um filme de Carpenter é boa ideia. E a todos os que avancem efectivamente com a ideia, que lhes nasça um espinheiro venenoso no cu. E que estas maldições tenham efeito retroactivo. Tenho pena, Rob Zombie, porque eu sou grande fã dos White Zombie e acho os teus albuns a solo bons apesar de nada de excepcional. Mas fazer música com um espinheiro venenoso no cu não é impossível, é incomodo. E com o tempo aprenderás a viver com isso, como te habituaste a usar uma barba cheia de cebo e aquele eyeliner que pode bem ser duplamente  interpretado como look gay ou look sem-abrigo.

5 Comments

  1. Sem dúvida um dos meus clássicos favoritos do Carpenter a par do “The Thing” 🙂
    Muito fixe e tal como um bom whiskey de puro malte, envelheceu bastante bem!

  2. Este, o The Thing e aquele que eu nunca me lembro do nome dos óculos de sol são do melhor

  3. Carpenter já chegou a fazer alguma coisa em condições…
    Já agora, pressinto uma critica do Sr Xunga ao Super 8 dentro de pouco tempo… Nestas coisas não me costumo enganar…

  4. É verdade Bruno, vou fazer brevemente uma crítica ao Super 8, mas não pelas razões que pensas. É que paguei mesmo e ainda por cima no dia em que saiu o R5. Já passei os olhos pelo R5 para rever algumas cenas, mas tem fraquissima qualidade. Cores pouco saturadas, falta de resolução. Desenrasca, vá!

  5. A Lenda, o filme dos óculos do sol a que te referes é o “They Live”, o tal que inclui a one-liner mais chunga e irresistível de sempre.

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