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Ah, é verdade! Valerian (2017)

Ah, é verdade! Valerian… Bom, para fazer o teste da ficção científica ao miúdo lá fomos ver o Valerian. Começou mal quando me foi dito que os descontos, cartões, talões, promos, cunhas, piscadelas de olho ou subornos em pastelaria não funcionam nesta sessão. Mostrei o cartão de colombófilo, a funcionária voltou a acenar negativamente com ar zangado. Preço de antestreia, oito euros e meio. Sem óculos. Com direito a pipocas, o balde mais pequeno. De meio metro cúbico. Já não pagava tanto por um bilhete desde… sei lá, provavelmente nunca paguei tanto por um bilhete. Aposto que há países orientais em que se podia fazer uma orgia de médio porte com este valor. O que hei-de fazer? O prometido é devido. Meti o meu saco de rúpias com o símbolo de cifrão em cima da mesa e pedi os bilhetes. Sala composta, este trimestre a NOS apresenta resultados positivos à custa das minhas poupanças. “Até ao fim do mês o jantar é salsichas Izidoro todos os dias, miúdo!”. Deu-me um sorriso de cortesia com os olhos de “lá está o meu pai com aquele discurso que ninguém entende”.

Ver um filme em 3D para um gajo de meia idade que usa óculos e mesmo assim vê mal é sempre uma experiência ingrata. Uma agonia. O 3D torna o ecrã pequeno, confuso e escuro. Diminui a experiência de cinema. Há quem defenda que é essencial em Valerian. Discordo. Um filme que necessite de 3D para existir não faz parte do cinema, é um número de circo. O 3D deverá ser um extra para quem gosta, não deverá distrair. Uma artimanha saca-euros que nunca deveria ter saído da pornografia, de onde o Cameron o desenterrou com o Avatar em 2009.

A minha desconfiança para com Valerian vinha da parte estética, o excesso de efeitos especiais digitais. É certo que para criar o mundo que com estas características não haveria outra forma de o fazer. O trailer é paupérrimo em componente humana. As cores do digital são bonitas, dão belo gaming. Só que são também demasiado artificiais e não refletem a realidade. Gosto que o meu cinema reflita alguma realidade. Nem toda a realidade, nem todo o meu cinema. Alguma, que me prenda ao chão como uma estaca, um farol de existencialismo.

O início não augura coisas boas, o cenário do planeta paradisíaco com seres Avatarianos em paz e harmonia. Excesso de CGI confirmado. Depois o tom muda e o filme torna-se menos uma ameaça ao olhar.

Se, num exercício de abstração, for separada esta omnipresente componente CGI, o filme torna-se razoável, diria mesmo que se torna bom. Às vezes não é mau outras é bom. E isto tem a ver com a narrativa, alguma complexidade extra que publico alvo deste tipo de produções pode não reconhecer a familiaridade. Não é um filme complicado nem complexo, é mais complicado e mais complexo que a média blockbuster da pipoca. O arco narrativa da resolução do mistério tem muito de Besson e Fifth Element, aquela procura de um tesouro que pode muito bem não ser de ouro e o realce daquilo que realmente interessa na vida. O final é satisfatório e as reviravoltas do enredo são suficientes para que o cinéfilo fique preso à cadeira sem sentir o impulso de consultar o smartphone.

Os conceitos associados à narrativa são também interessantes. Mesmo tendo descomplicado a trama e alisado um bocado a complexidade para maximizar o público e rentabilizar o investimento, Besson deixa belos exercícios conceptuais. Que maravilha a parte do mercado bidimensional e da interacção entre realidades. A própria dinâmica de Alpha, com as suas diferentes raças e habitats, a diplomacia associada ao funcionamento daquela embaixada universal (literalmente), a política, as motivações, o submundo, os párias da multisociedade, tudo isto ficou bonito. As raças, as suas caracteristicas, a sensação de Amsterdão do espaço.

A nível de personagens falhou a tentativa de fazer de  Dane DeHaan o novo Roger Moore espacial. Aliás, o casting parece ter sido um aparatoso acidente de comboio. O efeito secundário acabou por ser uma performance acima do esperado de Cara Delevingne, de quem não se esperava absolutamente nada. De Rihanna gostei. É um bocado overkill, é verdade, mas neste contexto de extrema flamboiância, um overkill passa como aceitável.

Diálogos fracos e desajustados, situações mal encadeadas e problemas de timing também notei. Suponho ter sido problema de montagem na fase final do “tira tira corta corta mete mete mais uma piada tira este plano longo assim assim blá blá.” Tirava-lhe o subplot de romance. Eu sei que foi lá colocado este gancho romântico para as gajas terem a sua dose de romance, mas valha-me deus. Não via uma química tão minuscula desde aquela anã que é investigadora da Pfizer em Minsk.

Avaliando a resposta da massa cinéfilo detetei bastante negatividade. Contra elementos que são fartos e ricos nos filmes que a mesma massa cinéfila adora. Poderá haver aqui uma fuga ao template marvel/disney/blockbuster que já é tão standartizado que as pessoas sentem-lhe a falta quando não o têm. Há que elogiar aqui a estratégia Disney está quase a atingir o seu objectivo primordial, o controlo total do cinema mainstream. Uma hegemonia comercial e um controlo mental sobre aqueles entre nós que frequentam salas de cinema ou outros quaisquer templos de consumismo de cultura pop. É pena que assim seja, em tempos que tanto se fala de diversidade.

Ainda assim foi uma experiência positiva, o miúdo gostou e sugeri-lhe que pudéssemos sei lá, um dia, uma altura em que não haja nada, no inverno, à lareira, uma folga minha, num tempinho extra, ver o Star Wars. Não respondeu. Ele tem os gostos dele, respeito a sua identidade. Talvez com hipnose a coisa se dê.

3 Comments

  1. O John Carter (of Mars) é melhor.
    fui!

  2. Esse para mim é a opinião de Schrödinger. Pode ser verdade e mentira ao mesmo tempo porque ainda não vi o John Carter. Se tivessem metido o caraças do “From Mars” no título de certeza que chamava muito mais malta.

  3. Leandro Ribeiro

    August 8, 2017 at 8:54 pm

    Curioso: concordamos em todos os detalhes, mas tu saíste da sala com saldo positivo e eu saí de lá a correr com medo de apanhar com “piadas” pós-genérico.

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