Malta, fiz as pazes com o Christopher Nolan. Às vezes é assim, de um momento para o outro. Aparece um inimigo comum e somos aliados. Vocês sabem do que falo, a Netflix quer acabar com o pouco que nos resta do cinema. Mandei-lhe uma mensagem nas redes sociais. “Nolan, precisamos de falar. Desculpa lá, eu às vezes excedo-me. O mundo piorou tanto desde que apareceste que, mesmo tu a manteres-te igual, o mundo fez de ti uma coisa positiva, Diz-me quando puderes passar pelo Barracão dos Ossos para almoçar. Pago eu. Só menu, sem sobremesa nem vinho.” E ele responde logo: “Obrigado pelo contacto. Daremos feedback assim que possível. És amado. Ass: Chris”. E eu fartei-me de rir. Mesmo à Nolan, estar lá sentado à espera da minha mensagem para responder logo com uma private joke, isto é o que ele me diz sempre que lhe mando uma mensagem. Ainda lhe disse “Moinante, não te esqueças de passar pela calçada do gato, porque se forem dar a volta ao hospital privado, atrasas-te 20 minutos.” E ele, sempre malandro, responde: “Obrigado pelo contacto. Daremos feedback assim que possível. És amado. Ass: Chris”. Que fartote, este Nolão. Sempre a dizer que é um desligado analógico dos efeitos práticos e depois está sempre no telemóvel às mensagens.
Já ouvi, no meu tempo de vida consciente e a compreender razoavelmente o contexto social, dizerem que o Rock está morto. Esse mesmo, do Elvis, dos Beatles, dos Led Zepellin, dos Arctic Monkeys, dos Carcass ou do Yungblud. Uma frequência altíssima de reacendimentos. O ciclo da malta a fartar-se, virar para um pop ou dance manhoso e super artificial, sentem falta de som orgânico, Rock reacende, a malta volta a fartar-se e o ciclo renova-se umas duas vezes por década. O cinema igual. CGI: o cinema está morto. Video Digital: o cinema está morto. 3D: o cinema está morto. Hegemonia Disney?: morto. Deepfakes e AI: morto. Netflix a comprar tudo e ameaçar com asfixiar salas? Mo… *gulp*. Falecido.

E assim de repente, com os estúdios dos filmes que gostamos de ver em grande ecrã reféns da sala de estar e de argumentos que recapitulam a narrativa a cada 15 minutos, permitindo ver rabos e mamas nos instagram em simultâneo, o cinema dá estes sinais reconhecíveis de metastização e o paciente fica inerte e semi consciente. Deitado na sala com o comando na mão, a babar-se. Suficientemente acordado para pagar a subscrição. Sincronia conteúdo-assinante.
O Doutor Nolan já se pronunciou acerca desta intentona de nos roubar a única coisa que nos retesa os mamilos, e nós unidos lá iremos lutar pela manutenção da possibilidade de ver um filme numa sala cheia de adolescentes barulhentos a atirar comida, enquanto velhas dão likes no facebook com a luminosidade no máximo e os tipos que nos venderam o bilhete com as lâmpadas de projeção já gastas mas a ignorar a manutenção obrigatória. É isso que nós queremos, esse direito de ver filmes péssimos também em sala, de nos deixarmos envolver naquele escurinho que nos relembra todos os momentos em que fomos felizes dentro daquela sala escura com os olhos arregalados a querer também estar naquela nave espacial a matar vilões do espaço, nos 120 minutos em que o tempo para e todos podemos ser tudo o que nos propusermos a ser, como aquela menina que pergunta à Wonder Woman se pode ser como ela quando crescer.
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