wristcutters

O cinema alternativo americano tem-se ultimamente vindo a uniformizar ao ponto de se poder já encontrar uma fórmula de funcionamento. Enquanto nas décadas passadas o cinema alternativo (estirpe Sundande) era mais surreal e estratosférico, ultimamente tem vindo a apontar para a fórmula de contar uma história (simples e convencional) usando meios narrativos e estéticos não convencionais. Há aquele ambiente de “what the fuck!?!“, mas no final o amor tudo conquista. Wristcutters é uma pérola em que, em boa hora, tropecei.

Farto que estava de cinema mainstream decidi fazer uma pausa e procurar qualquer coisa que não tenha a voz grave daquele bacano no trailer. Wristcutters atraíu-me pelo título. Uma comédia romântica de humor negro sobre suicidas passada no after-life? Quem pode dizer que não a uma premissa destas? E o melhor de tudo é que as coisas depois ainda ficam melhores. Enquanto que o argumento poderia ser perfeitamente banal se um simples road movie entre Ohio e Las Vegas, passado num local do éter em que as pessoas estão incapacitadas de sorrir e tudo é degradação e cor apenas a 45% dá outra ânimo ao filme. E são as pequenas nuances, as taras, tiques e manias deste filme que fazem dele cinematografia de qualidade superior. E quando vi este filme confesso que estava pelos tomates de cinema convencional.

Apesar de um all american production, a realização é encabeçada por um europeu. Desconhecia por completo o realizador croata Goran Dukic, mas prometo estar mais atento no futuro. Isto vem dar ainda mais razão à corrente que actualmente diz que Hollywood vai sobrevivendo criativamente apenas graça ao envolvimento europeu. Isso e o porno, que continua a dar mais dinheiro que as armas ou medicamentos. Além disso tem a participação de Tom Waits (sim, esse!) como actor e ainda de Patrick Fugit, o puto de Almost Famous.

Pontos Altos: Estéticamente perfeito e coerente na cinematografia.

Pontos Baixos: Em termos de argumento é apenas um road movie em busca de amor. Mas não o são todos?

Veredicto: Para quem precisa de um pouco de ar fresco.

Nota: Escrito a 28 de Fevereiro no antigo CinemaXunga. Original pode ser encontrado aqui.