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Singularidades de uma Rapariga Loura (2009)

singularidades

Um homem que declama lamúrias teatrais com os olhos postos no vazio. Uma mulher que gesticula dramaticamente num misto de epilepsia com ímpeto de cólera, mas muito lentamente. A arte do anacronismo como choque social.  No freakshow que é o cinema português eis Manoel de Oliveira, a nossa mulher barbuda.

Aos 100 anos continua a fazer cinema, ao ritmo preciso de um por ano. Manoel de Oliveira é meio realizador, meio mito. Toda a gente fala dele, toda a gente tem opinião pré-formatada do seu trabalho. No entanto são poucos os que lhe veêm os filmes. E neste ponto não os podemos criticar, porque da maior parte das vezes têm razão.

Singularidades de uma Rapariga Loura é uma adaptação de um conto de Eça de Queiroz que nos fala de um homem com uma terrível paixão por uma miúda loira que costuma observar da janela. Sacrifica a sua vida para ficar com ela e no final alguns acasos do destino tornam-lhes a vida bastante complicada. Não é propriamente uma história original e o final abrupto, o avô do twist, mais do que surpreender deixa-nos um “what the fuck?” pendente. No mau sentido. Digamos que se adapta perfeitamente à estética Oliveira e aos seus finais ao estilo “homem do talho”.

Manoel pega nesta história como pega em todas as outras. Passa-a a ferro e injecta-lhe melancolia até ao tutano. Dá-lhe uma mecânica declamatória e teatral um bocado irritante e irreal. Se fosse surreal seria bem mais agradável. E o filme lá vai, em passo lento como se fosse inteiramente feito de slides.

Mas não se pode dizer que seja um filme mau ou aborrecido. Nem por isso. É curto, uma hora. Passados os confrangedores primeiros 20 minutos as coisas começam a aquecer e até nos habituamos à bizarra dinâmica do filme, que é muito semelhante à dinâmica dos outros filmes. Podemos ser optimistas e encarar aquelas posturas super rígidas e coloquiais como sendo opção artísticas e alguma estranha forma de crítica social, mas acho que é mesmo um reflexo da sociedade do tempo em que o cérebro de Oliveira armazenava memórias.

5 Comments

  1. cine31

    Acho que o unico filme do homem que vi até agora foi o “Non, ou a blá blá…” na RTP2 (tenho a impressão que não vi até ao fim…) , mas se este só tem uma hora estou disposto a dar-lhe nova oportunidade, mais que não seja para poder criticar o estilo do realizador mais velho em actividade (ou não…)

  2. P.

    Acho imensa piada à forma como falas de oliveira (e não é só deste post). nota-se um misto de gosto e estranheza. o singularidades, até pelo tempo que demora, é capaz de ser óptimo para quem se quer iniciar em oliveira. vi pouco dele, também (a caixa, de que gostei muito, tive uma desistência no non, ou blá blá, que é muito pachorrento). mas no singularidades até gostei do twist. parece coisa à eça, da ironia das farpas ao mesmo anti-climax (passe a escala) dos maias. não há um grande triunfo no final do singularidades, até porque parecia natural que aquilo não fosse acabar bem. há teatralidade, mas também há planos que parecem metidos à pedreiro. o que até é bom. não me parece que seja um realizador certinho. oliveira não é um beto.

  3. SFC

    Quando em algum dos filmes de Manoel de Oliveira os actores não parecerem deficientes da fala que decoraram um monte de texto sem saber muito bem o que é que ele significa, avisem-me.

  4. a. neto

    Ainda a propósito da entrevista do M.Oliveira aos Cahiers de 9/09 – aquando da premiére de Singularidades de uma Rapariga Loura .
    Um filosofo espanhol disse: as circunstancias podem levar qualquer um a fazer qualquer coisa! M.Oliveira, afirma que faz filmes ,”e isso o tem impedido de matar pessoas… mesmo quando a crítica não é boa! “(risos.), interessante é Volker Schlöndorf, que faz filmes de naturaza completamente diferente, ter afirmado nos anos 70 : ” eu não ponho bombas …faço filmes”, quando questionado sobre se simpatisava ou não com os militantes da R.A.F. (Fracção do Exército Vermelho ).
    Duas afirmações semelhantes , mas no fundo diametralmente opostas…

  5. a. neto

    À duas ou trés semanas atrás foi a entrevista e um artigo nos Cahiers a propósito do “Singularidades de uma Rapariga Loura”, deliciei-me com o tom filosofico no início…etc.– claro que sabia de antemão qual seria o rumo daquilo, uma critica rendida incondicionalmente ao ” maior génio vivo do cinema”- palavras dos mesmos Cahiers á anos atrás.
    Hoje este texto, que presumo ser da tua autoria, BRAVO!… claro que não concordo inteiramente, sou do contra, mas é uma críitica inteligente (com imagens lindissimas), irónica e bem humorada, de alguém que se vê ama a palavra escrita e o cinema (o do Manuel de Oliveira… também) . Obrigado
    ps:…oops… ainda não vi o filme…

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