
Por vezes temos que usar este mecanismo do podcast que ninguém ouve, blogs que ninguém lê, como uma espécie de psicólogo barato, em que fazemos sessões de 15 minutos para exteriorizar velhos e recalcados traumas. O que vos vou contar hoje aconteceu quando eu tinha uns 10, 11 ou 12 anos. Tudo começou numas férias em família na Figueira da Foz. O nosso parque de campismo era junto a um café que tinha uma peça de tecnologia inovadora: um leitor de VHS ligado a uma televisão pequenita. Foi lá que fui apresentado ao First Blood – Part II. Foi uma espécie de overdose de Sylvester Stallone; só havia três ou quatro cassetes a rodar e eu fiquei fascinado com o herói não cantado dos Estados Unidos a resgatar amigos no Vietname.
Quando a escola começou, aquela época cinzentona, o meu pai saiu-se com esta: “Ei, puto! Está um filme do Sylvester Stallone no cinema!”. Eu, inocente, pensei logo em tiros de metralhadora e pessoas a serem cortadas às fatias ou a saltarem de prédios em chamas. Mal sabia eu que era um estratagema, uma psicologia invertida, porque na verdade era ele que queria ir ao cinema. O filme chamava-se O Destravado do Táxi Amarelo (Rhinestone). O póster era o Stallone com um táxi amarelo e uma tal de Dolly Parton, pessoa que eu não conhecia de lado nenhum na altura.

Entrei no cinema e fiquei à espera da carnificina, mas o que recebi foi um musical. A história é surreal: a Dolly Parton é uma estrela de country que faz uma aposta em como consegue pegar em qualquer pessoa e transformá-la num cantor de country. O escolhido é o Stallone, um péssimo condutor de táxi em Nova Iorque. Ver o Stallone, aquele tipo feito de madeira, que só tinha mãos para matar, estripar e estrangular, a usar um fato amarelo cheio de brilhantes (rhinestones) e a cantar, foi um choque. Chegou a uma altura em que eu já só rezava: “Por favor, não haja pessoas a cantar! Não rompam a meio de uma cena com uma cantoria!”. Mas sim, o filme é esse tipo de filme.
O filme é realizado pelo Bob Clark, que nos merece todo o respeito por clássicos como Black Christmas, A Christmas Story e Porky’s. Rhinestone não é um alto nem um baixo na carreira do Stallone; é uma singularidade. Na altura ele ainda não teria pleno controlo da carreira e aceitava papéis que lhe dessem dinheiro, mas pegar no estereótipo do homem duro e seco para fazer dele uma criatura sensível e cantora foi… traumático. Obrigado por participarem na minha sessão de psicologia. Eu precisava de mandar isto cá para fora. Se alguém aí tiver traumas para partilhar, digam qualquer coisa que nós, até a dois, fazemos essa sessão.
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