Desde 24 de Junho de 2003

Prequela da crítica dos Avengers (estará esta juventude perdida?)

Sexta-feira, início de Verão. Faz-se noite e pelas frestas do controlo parental começam a afluir às superfícies comerciais hordas de jovens mancebos que carregam o peso morto das expectativas dos seus pais. Sonhos projectados naqueles que, inebriados por uma realidade sintética, vivem uma encenação de prosperidade. Sonhos que lhes foram confiados. Sonhos que acabam sempre violentados e jogados em farrapos nos caudais fétidos do mais vil desprezo pelo trabalho alheio. Diria o poeta que seria um insano desperdício de amor. Mas como todos sabemos, o poeta é outro paspalho inflado de excesso de auto-confiança com capacidades quase sobrenaturais de parasitismo. Além disso o poeta aprecia a sua linha de coca e o ocasional enrabanço ao abrigo do direito de exploração artística.

Perante o excesso de uso dos adjectivos “espectacular” e “brutal” associado à utilização incorrecta da linha da cintura em calças de ganga, pouco me resta senão abusar do preconceito para catalogar todas aquelas jovens criaturas como “cambada de atrasados”. Mas quem sou eu para os julgar, uma vez que me encontro na mesma fila de bilhetes para o cinema. É certo que procuro usar de modo correcto a linha de cintura nas minhas calças e mastigo com a boca fechada, mas não deveria estar na outra fila a respirar multiculturalidade e erudição? Talvez, mas os rabos da outra fila são menos firmes e as expressões faciais assemelham-se imenso ao estado de depressão profunda. Ali tenta-se compensar o falhanço de um plano de vida venturoso por assimilação de conteúdos mais letrados na esperança que a intelectualidade tenha um dia lugar na lista de atributos de um rockstar.

Agora que tenho o bilhete compreendo que escolhi mal o horário. O som de dedos supersónicos a escrever mensagens confunde-se com uma musculada mastigação. Risadas infantis e o som de noviças a serem impressionadas por coisas simples causam-me alguma nostalgia. Saudades dos tempos em que não saía de uma sala de cinema sem o doce odor da intimidade teenager na ponta dos dedos. Saudades de ser eu próprio facilmente impressionado, de achar que um explosão em camara lenta seria sempre o climax de qualquer boa produção, que nunca iria haver nenhuma sequência de efeitos especiais melhor que o monstro final de Howard The Duck nem nenhum par de mamas melhor que Jamie Lee Curtis. Tudo se perdeu, apesar de pares de mamas melhores que Jamie Lee Curtis serem impossíveis de encontrar.

E assim começam os Avengers, na sua leviandade narrativa e vazio de conteúdo, mas disso falaremos na nossa próxima conversa.

6 Comments

  1. Sofia

    és um bocado esquisito

  2. Joao Bastos

    Não poderia estar mais de acordo… Começa a ser difícil escolher um horário decente para ir ver um filme… talvez em horário letivo… E a parte do “cambada de atrasados”, quase que apetece tirar as aspas…

  3. Nuno Reis

    Só digo uma coisa: 3a a 5a, 19h.

  4. Bruno

    Também costumo ir às sessões das 19h ou ainda antes, pelas 15, que sossego maravilhoso

  5. Edgar

    Infelizmente, trabalhando das 9 até hora incerta nunca consigo apanhar uma sessão das 19h. O que vale é que o Gaiashopping não é muito frequentado.

  6. Cosmos

    Adorei!
    Poético, incisivo, para pensar…

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