Desde 24 de Junho de 2003

Last Action Hero (1993)

Haveria de passar uma semana até saber o que o destino havia guardado para o futuro do cinema. Mas naquela noite, ao início da madrugada de um tempo em que apenas existia para mim a sessão da meia noite, naquela noite fresca e convidativa para a juventude se abandonar à conversa casual e das certezas absolutas dos 20 aninhos, naquela noite tinha saído do Cineteatro Avenida em Coimbra onde vi o Last Action Hero. Os meus olhos brilhavam como uma teenager de Anime e o coração batia forte. O último filme de Arnold Schwarzenegger era um marco incontornável no cinema e na carreira do meu action hero preferido. Arnie reinventou-se numa altura em que toda a gente se perguntava “E agora? O que vai Schwarzenegger fazer quando já chegou ao pináculo?”. Bom, e foi assim que se reinventou num meta filme dentro de um filme dentro de um filme a olhar de fora para dentro e, simultaneamente, de dentro para fora, e dos lados e de cima para o cinema. Inverter a estrutura, partir a 4ª parede e criar a 5ª dimensão.

Ninguém estava à espera que o filme tivesse a personificação de nós próprios e dos nossos sonhos (o miúdo do bilhete), a interação com as nossas mais selvagens fantasias (misturar os dois mundos, cinema e vida real) e os mais musculados meios na feitura de uma obra de acção. Um filme com efeitos tão reais que se sentia o cheiro a pneu queimado, queimava na cara o sol da Califórnia do mundo do cinema e sentia-se no couro a porrada que o herói apanhava. Uma produção analógica à moda antiga, com duplos e destruição real. Um filme musculado precisa de um realizador musculado, neste caso só havia uma opção: John McTiernan.  Nada de McMenus do CGI. Nesta área do CGI havia um cartoon polícia, que carimbava ali a presença do Roger Rabbit / buddy cop movie de parceiros não convencionais. Creio que na altura se pensava que seria esse o futuro do cinema de massas. Vejam-se as tentativas de reiniciar esta tendência anos mais tarde, nomeadamente The Adventures of Rocky & Bullwinkle, Stewart Little ou Space Jam.

Passados uns dias peguei num jornal onde fui ler tudo acerca do filme. Críticas de jornais portugueses e recortes de revistas estrangeiras que tinha guardado. Ora, o público odiou, os americanos não perceberam, os críticos batalhavam-se para ser coerentes sempre numa retórica negativista e malta que tinha gostado dizia agora que “ah, pá, pensando melhor nem gostei assim tanto.” Sendo a palavra-chave aqui “Americanos odiaram” e eram eles a pagar o box-office.

Fiquei com a sensação de que aquele momento definiu o início do declínio de Hollywood e de toda a civilização ocidental. O público não compreende abstração, os estúdios retraíram os testículos e viraram-se para o esquema da “sequela, prequela, remake” e o apocalipse cinematográfico do séc. XXI pode ser encontrado aqui, nesta estreia.

É certo que a visão inicial de Shane Black foi distorcida pelo imenso corte e costura que este guião sofreu, tornando-o num Frankenstein dos argumentos de cinema, mas ainda assim há uma nova dimensão de genialidade que o blockbuster nunca tinha visto.

Uma das razões que também contribuíram para este descalabro galáctico foi o esquema de promoção. Nesta altura as promoções era feitas através das bandas sonoras. Meio ano antes começou a rodar o CD com as músicas do filmes, uma das melhores coletâneas de sempre, todas as estrelas da época. Alice in Chains, AC/DC (com Arnie no vídeo), Megadeth, Def Leppard, Cypress Hill, Queenryche estavam entre as bandas mais queridas pelo grande público que esperava algo mais linear e convencional. Bem se foderam. Para mim, amiguinhos, criou-se um clássico instantâneo que ainda hoje ressoa na zona das minhas melhores memórias e terá com certeza um lugar na história. Irão dizer que Citizen Kane é o Last Action Hero dos anos 1940.

9 Comments

  1. alucardcorner

    Que grande filme! A ideia de um filme dentro de um filme já tinha sido bem explorada no Demons

  2. pedro

    É verdade sim senhor. Mas este foi para as massas em formato blockbuster.

  3. Rui Pedro

    Nunca percebi como este filme não fez imenso sucesso. É divertido q.b., um vilão impecável, um actor no topo da carreira que não tinha problemas de gozar consigo próprio. Isto é dos melhores filmes do Schwarzzas!

  4. pedro

    Não se percebe, realmente.

  5. chico castor

    nem brinques comigo – fui ver isto 4 vezes ao cinema. acho que se pode dizer que gostei.

  6. pedro

    Liguei o meu VHS à aparelhagem só para simular o som do cinema.

  7. Emanuel Neto

    Para mim, o ponto alto é quando Danny vai sozinho à sala de cinema ver “Jack Slater IV” e o início do filme é ao som de “Angry Again”, dos Megadeth.

  8. pedro

    Uma grande malha que ainda hoje roda no meu carro com frequência.

  9. Isa

    Como todos os filmes encabeçados pelo ti Arnaldo, adorei! E pessoalmente, acho o Last Action Hero um filme muita fixe, nunca percebi as criticas.

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