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Hobo with a Shotgun (2011)

Antes de mais nada deixem-me fazer o disclaimer do costume no que diz respeito a filmes de Grindhouse ou outros que não sendo para levar demasiado a sério, são terrivelmente divertidos. Isto porque aparecem sempre umas Maria Amélias a dizer “como é possível gostar disto” ou “não gostei, esperava mais” como se de algum modo esperassem encontrar o sentido na vida num filme que retrata as aventuras de um sem-abrigo com uma caçadeira. Normalmente são jovens que idolatram os Oscars, fingem gostar do 8½ de Fellini para efeitos de promoção pessoal por intelectualidade, falta de sentido de humor e que devido à sua própria falta de confiança pensam que quando as pessoas se riem é deles e, mesmo os do sexo masculino, têm vagina. São os mesmos que vão ver a Hanna Montana e o Harry Potter para depois fazerem críticas onde mencionam excertos da teoria semiótica da narrativa e  escreverem que os filmes são demasiado infantis para serem levados a sério. Virgens, portanto!

No continuação de adaptações ao cinema dos célebres Faux Trailers de Grindhouse, Hobo With a Shotgun é o segundo a receber adaptação oficial, depois de Machete em 2010. Quer isto dizer que não faltará muito para que estreie Don’t, Thanksgiving e o meu preferido Werewolf Women of the SS. Esperamos apenas que a crise não nos reduza a largura de banda nos próximos tempos.

Hobo With a Shotgun é um filme do género action exploitation, um género bastante familiar a todos aqueles que, como eu, se aproximam perigosamente dos 40 anos de idade. Nos final dos anos 8o os clubes de video estavam pejados de filmes de violência extrema, normalmente de origem italiana cujos elementos chave eram sempre uma história de vingança sangrenta, alto factor de “randomness” e uma especial originalidade nas mortes, sempre com o sangue na casa dos hectolitros. Sim, claro que eram mal feitos, irrealistas e por vezes para forçar uma determinada morte era preciso curvar ligeiramente a narrativa no sentido do “perfeitamente idiota”. Hey, mas era extremamente divertido, who cares?

A história é simples, como convém. Um sem-abrigo chega a uma cidade imersa num violento caos, de polícia corrupta, violência, prostituição, a fazer Old Detroit de Robocop parecer a capital da Noruega. Controlada por gangs retro-futuristas e outras caricaturas saídas directamente dos 80s e governada pelo mais detestável vilão da História da sétima arte, um espécie de Boss Hog mutante dos Dukes of Hazzard propulsionado a meta-anfetaminas e fluido vertebral de recém-nascidos. Os seus dois filhos não se ficam atrás, dois Cristianos Ronaldos Lookalike com uma aptidão fora do normal para infanticídio em massa. O nosso sem abrigo é puxado para este mundo sem perceber como e não tem outro remédio senão começar a trespassar intestinos e rebentar cérebros à força de balázio de caçadeira.

Seguem-se os piores actos de violência e sadismo alguma vez visto no cinema mainstream ocidental, desde queimar um autocarro de crianças com lança-chamas até clubes de tortura onde prostitutas que rendem pouco são usadas para arte de retalho para diversão de grupos de rapaziada jovial que já não sente prazer em estropiar grávidas ou atropelar freiras. O sangue flui como água em Cabora Bassa e ninguém escapa impune aos constante fluxo de carnificina que parece  nunca abrandar nos 80 minutos úteis de duração do filme. Atenção que eu vi a versão Unrated.

Ainda assim desenganem-se aqueles que pensam que lá por ser uma homenagem/paródia se caiu num nível de produção de Scary Movie ou outros subprodutos tóxicos hollywoodianos do género. Nada disso. Tecnicamente, Hobo with a Shotgun é muito bom. Um cuidado especial na fotografia, saturada e rica em detalhe, a iluminação é exuberante e competente a atingir aquilo a que se propõe. A narrativa não é especialmente meritória de um Nobel mas é servida a um ritmo competente e “just in time”. O detalhe dado às cenas é muito original, com uma densidade de boas ideias de produção rara num filme de acção. Uma estética de violência e um trabalho de câmara excepcional. Tem, no entanto, uma cortante falta de nudez e sexo que ficariam muito bem entre os 45 e os 50 minutos, antes da partida para a sequência final de mortandade.

Ver morrer é um prazer! Um belo serão que se passa à lareira a ver pessoas a falecer violentamente antes do seu tempo junto da nossa amada, quem sabe para comemorar um aniversário de casamento ou de namoro. Estou a gozar, obviamente. Vejam-no sozinhos ou com colegas da ganza, senão as vossas senhoras infernizar-vos-ão o juízo até ao dia do juízo final e sempre que estiverem quase a perder uma discussão irão dizer “Ai é? E aquele filme que me fizeste ver no nosso primeiro aniversário? Aquela coisa horrível que me fez correr para casa dos teu melhor amigo à procura de um ombro para chorar. E por causa deste filme de merda uma coisa levou à outra e quando dei por ela já o video tinha 449.893 hits no pornotube, o dobro do video mais visitado da tua mãe!“.

 

6 Comments

  1. Não estou familiarizado com este filme, mas se for tão “bom-mau” como Machete mal posso esperar para o ver.
    Excelente análise meu amigo, adorei em particular a introdução que põe os devidos pontos nos i’s em relação a este tipo de obras.

    Cumprimentos,
    Miguel C.
    http://clockworkfiction.wordpress.com/

  2. Eu nao comento aqui o suficiente para te dar o credito devido mas desta vez tive de vir mandar o meu bitaite porque nao so me informaste que este filme ja andava por ai (estava a espera dele ha ja algum tempo), como me caguei a rir. Muito bom pa!

  3. Espectacular, sim sr! Isto é que dá prazer de ler.
    Gostei do filme, mas… sinceramente também esperava uma cena de sexo entre o mendigo e a sua amiga prostituta =\
    Paciência…

  4. Já cá o tenho para ver em breve. Quando ouvi falar deste filme pela primeira vez pensei, “o John Ryder enganou-nos a todos e continua a deambular por aí.” 🙂

  5. Quero muito ver isto e basta que esteja ao nível de “Machete” para ser genial.

  6. Isto realmente é de uma violência magnífica… Só falta mesmo é mamas e sexo e mamas…. E esqueceste-te de dar uma palavra de apreço à Praga a tropa de elite lá do sitio que já apanhou entre outros Jejus Cristo e Abraham Lincoln, além de manter em cativeiro um gande bicho com tentáculos… A entrada deles no hospital é triunfal.

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