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Gone Girl (2014)

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Há filmes que nos apanham de surpresa e outros há que se fazem anteceder por uma comitiva de arautos que nos vêm massajar o sistema límbico, dando garantias de qualidade antecipada, o famoso hype. Gone Girl é um desses exemplos de filme que se fez sonoramente anunciar. Porque é realizado por um ilustre, porque tem o Ben Affleck (a humedecer vulva na faixa etária entre os 30 e 55 anos) e baseado num best seller de prestígio. Talvez o prestígio do livro até tenha sido criado pela existência do próprio filme. É um caso típico de masturbação circular, criação de rentáveis produtos paralelos a partir do nada. E com “nada” quero na realidade dizer 200 milhões de dólares em marketing, trafulhice subliminar, bullying legal e velhacaria em geral. Não sendo minha função emitir juízos de valor, que faço ainda assim, vamos aqui filosofar acerca de Gone Girl e perceber se estamos perante obra digna de futura herança cultura dos anos 10 do século XXI ou se é apenas mais um pomposo balde dourado de caca de vaca.

Gone Girl mune-se de todas as ferramentas de uma obra que se quer fazer respeitar. Um realizador de peso, uma direcção de fotografia de primeira linha, uma narrativa multi camada que serve tijolões monodimensionais e cinéfilos sedentos de storytelling envolvente. A história é a de um homem normal, longe de ser o marido perfeito, que se sê a enredado no desaparecimento da esposa no dia do seu 5ª aniversário de casamento. Pouco apavorado pelo potencial dramático do evento, vai à polícia dar conta da ocorrência e rapidamente se vê como principal suspeito no desaparecimento da esposa. Não compreendendo bem o que está a acontecer, é apanhado na sua incredulidade num furacão mediático e judicial que não pende nada seu favor. Aquilo que poderia ser um filme completo, com principio meio e fim, é aqui apenas o primeiro acto de um filme que vive do twist e contra-twist de um dos mestres da técnica. Estaremos porventura emaranhados na medula de filme perfeito?

A minha opinião é “Não” e a continuação deste texto implica spoilers e deve ser lida apenas pelos portugueses e portuguesas (e mundo em geral) que já lhe viram o fim. Reader discretion is advised. Ah, e para quem não viu e também não quer ver a salsicha flácida de Affleck dependurada com se num fumeiro estivesse, pode saltar já fora deste barco.

Spoiler Alert copy

É de facto um filme corajoso nos meios e na própria feitura. A verdadeira riqueza está na maneira como expõe uma das maiores pragas da nossa época, a imprensa que se afasta cada vez mais da informação e se dedica a 100% à reality TV e à usurpação da vida privada como forma de entretenimento nacional, da maneira como fazem guiões consoante as suas necessidades publicitárias com as vidas das pessoas onde a verdade e os factos não tem sequer lugar por ser demasiado aborrecida para leitores / telespectadores sedentos de escândalos e desgraças pessoais. De resto é apenas um bom filme até ao final do primeiro acto, cerca de uma hora, sendo que depois se transforma numa sucessão anedótica de eventos afixados com fita cola como conveniência do argumento, pelo choque e pela escândalo, como os meios de comunicação cor de rosa que expõe e satiriza.

A escrita da primeira parte do filme pauta-se pelo rigor e pela representação de uma astuta representante da lei, que não deixa escapar o mais ínfimo pormenor. O pobre Affleck nem se consegue virar para lado nenhum tão apertado é o enredo. A partir do twist, curiosamente, o rigor da investigação científica e policial deixa de existir, como se a inteira força policial se transformasse em tansos crédulos alimentados a mentiras e contentes em acreditar que o destino e a palavra de honra são a base da nossa paz social. Mesmo quando o plano da endemoniada esposa corre mal e se vê a improvisar descuidadamente esquemas mal planeados, ninguém tem o discernimento de sequer questionar todas as dezenas de pontas soltas e partes da história que não coincidem. As forças da lei, quais convidados da Oprah, choram de emoção e limpam as lágrimas com a coragem daquela puta feita heroína na fábrica de fazer heróis que são os meios de comunicação americanos. Nada disto me indignaria se a estupidez fosse a linha orientadora da investigação inicial. Não era. Isto para mim, crianças, é puro artefato narrativo para encaixar artificialmente um conjunto de ideias.

A actriz que interpreta a esposa de Affleck e que é encarregue de levar às costas grande parte das reviravoltas destes destinos vê-se numa tarefa demasiado complexa para a sua própria capacidade técnica de representação, transformando aquilo que poderia ser uma das personagens da década numa tentativa falhada de sociopata, demasiado telenovelizada para um filme que requer alguma textura e rugosidade nas representações. Muito me admiro de no final não serem afinal todos irmãos gémeos separados à nascença ou, quiçá, pais da sua própria mãe.

A música dita “atmosférica” deu-me vontade de esfaquear alguém e expõe  mais outra das falhas deste filme, a extensa duração que se perde em dramatismo de cordel quando poderia ir directo ao assunto. Em honra a este estilo de narrativa, uma das personagens dever-se-ia chamar de Dulcineia.

Ao final da primeira hora, quando se percebe que a esposa é afinal uma psico cabra especialista em esquemas funestos com olho para o detalhe, o filme desmorona completamente. Num momento de twist em que o cinéfilo deveria ficar horrorizado e perplexo com a revelação da mudança de tom, a narração estraga por completo o momento e nos deixa irritados com o mais merdoso truque existente, o diário da personagem como desculpa para narração. Bela merda, Fincher. A culpa não é toda dele. Como um filme com aspirações de blockbuster, 75% do público alvo é demasiado idiota para subtilezas. Se as coisas não forem “Olha, isto passou-se isto assim assim” as pessoas ficam confusas.

Bem vistas as coisas é um filme que fica barato se for encarado na sua vertente “preço por hora” e ideal para ver com aqueles amigos que não são aficionados das artes cinematográficas mas que gostam de pedir sugestões para depois dizer “Bela merda de filme que me sugeriste. Aquele fim deu-me diarreia de 3 dias.

 

4 Comments

  1. Incrível, está crítica ao filme descreve quase linearmente tudo o que pensei quando o acabei de ver já 2 ou 3 dias. Great minds think alike!!! Detesto o David Fincher desde que ele arruinou o final do fight club não seguindo o livro e o seu final perfeito. Este Gone girl foi só mais um exemplo da sua nabice 🙂

  2. Vi-o ontem à noite e até uns 20mn antes do fim estava a achá-lo fantástico.. Deram cabo dele quando a tipa reaparece e a policia praticamente deixa de investigar com *tanta* coisa a cheirar mal.
    O advogado, que andava a ser vendido como um tubarão, desapareceu do ecrã sem fazer nada, revelou-se uma personagem completamente acessória.. idem para o ex-namorado que tinha sido acusado de violação.. idem para o desgraçado que foi degolado. Nenhuma das vitimas da gaja viu justiça a ser feita. Tanto sumo que ficou ali por espremer 😛

  3. Os twists são demasiado previsíveis…

  4. João Carvalhinho

    January 20, 2015 at 5:29 pm

    … mas tem as mamas da tipa do video do blurred lines… ahp… viam-se melhor nesse video.

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