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Scouts Guide to the Zombie Apocalypse (2015)

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Final de Outono de 1986, Quarta-feira, noite húmida e fria sem chuva. Fui o primeiro miúdo da minha rua a ter um videogravador e não tive que esperar muito para que um amigo seguisse o meu caminho. A partir daí criámos um poder avassalador, desconhecido nas redondezas até à data: copiar filmes do videoclube para os podermos manter até ao final dos tempos na nossa posse. E com isto começou a minha obsessão. Qual curador do MoMA, fui catalogando o produto daquela primitiva pirataria e comecei a fazer trailers dos que mais gostava. Ora, a minha ideia de trailer era meter as melhores partes em segmentos que podiam ir dos 2 aos 5 minutos. Normalmente de filmes hiperviolentos do pós-apocalipse e sempre com decapitações e intestinos expostos. Um dia chegaram à aldeia duas primas de Lisboa de um amigo que pensou que seria boa ideia, para as impressionar, irem a minha casa ver um filme do cinema. “O gajo tem lá filmes que podes escolher e ver o que te apetece. Até podes parar para ir fazer um xixizinho.” As sofisticadas jeitosas da metrópole sentaram-se e eu meti então a minha cassete de trailers para que pudessem escolher. Pensava eu, nos meus modestos inexperientes 14 anos, que os meus gostos eram os mesmos de toda a gente e se eu achava que era bom, todos achavam. Bem, erro fatal. Começaram a passar os clips de 2020 Gladiadores do Texas, Os Salteadores de Atlantis, Os Implacáveis Exterminadores e She A Raínha da Guerra e do Amor. E aquilo era tudo à base de freiras a ser violadas, motards decapitados, setas a atravessar crânios, pessoas trespassados por carros com espigões e muita gente a ser queimada com lança-chamas. Material do género deste post que publiquei há uns anos – The New Barbarians (1983) – Walkthrough. A cassete não chegou ao fim e a última frase que ouvi antes do bater violento e apavorado da porta da rua foi “Credo, que só cá tens cabeças!…”. Todos nos rimos nervosamente em tom jocoso com aquele desconhecimento que os rapazes adolescentes têm acerca das mulheres, e que continuam a ter até ao dia em que lhes ponham uma campa em cima.  E perdemos a oportunidade de uma bela tarde de marmelanço e apalpanço, porque elas não queriam realmente ver filmes, queriam um lenho túrgido da província para afagar por cima das calças enquanto ficavam com os queixas dormentes de tanto intenso linguar.

Creio já ter contado esta história aqui no blog há bastante tempo, mas os 3 jovens que a leram na altura já devem ter morrido de velhice entretanto. É um história triste e tocante de oportunidades perdidas, das dores do crescimento e de se estar permanentemente num estado avançado de estupidificação que nunca passa, digam o que disserem. Basta pensarem em coisas parvas que fizeram a semana passada. E lembrei-me disto por causa deste filme que me fez estar um pouco mais perto do género Zombie que tem ultimamente vindo a ser tão… genérico?

A comédia de terror é um dos meus sub-géneros preferidos do horror movie e é também um dos mais complicados de fazer bem. Equilibrar terror com piadas tem uma linha muito ténue para funcionar. Este Scouts Guide to the Zombie Apocalypse não é um dos exemplos mais bem conseguidos da história deste subgénero mas é um filme que me fez passar de modo muito divertido 90 minutos.

Para começar temos um poster muito bom a invocar outrora e as suas preciosidades. O estilo do teenager underdog, o geek que nada come e que parece atrair a jeitosa do filme de um modo inexplicável.  São um bom ponto de partida. É um filme que não cede a ratings e abusa da violência gratuita e descontrolada, da efervescência hormonal da juventude que não baixa do redline libidinal nem com um exército de monstros prestes a arrancar-lhe as tripas e o teor gráfico fortemente sexualizado que já vai sendo raro de se ver.

Numa época em que aparecem filmes de terror para maiores de 13 anos (remake do Poltergeist, etc), é refrescante ver que há malta que lhe dá na contra corrente. Desde um minete dado por um zombie sem o maxilar inferior a um jovem que se socorre de uma pila de um morto-vivo para se segurar de uma morte certa, o filme contém elementos que o tornam numa agradável memória.

Os actores são terríveis, é verdade, mas raramente acontece o contrário nestas produções. Produção essa que é ligeiramente mais endinheirada que o típico filme de zombies. Não abusa dos efeitos especiais e equilibra a maleita da interminável tesão adolescente com a morte certa de um apocalipse zombie. Ah, e a jeitosa da caçadeira e dos belos marmelos nunca dá o corpo ao manifesto. Chatice…

Numa última nota, deixo aqui já o aviso que o gore assenta muito no digital. Eu sei, é chato. É um bocado merdoso ver os esguichos de sangue, as decapitações de caçadeira ou as pessoas cortadas em duas por um cabo de aço em modo digital, mas penso que temos que nos mentalizar que esta merda a partir de agora vai ser toda assim. Pode ser que os melhorem, não sei. Torço o nariz a isto, mesmo compreendendo a liberdade criativa e os benefícios financeiros de tais decisões.

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2 Comments

  1. Tinha este filme no fundo da minha watchlist, mas como esta manhã vi que tinhas escrito sobre ele lá tive de o ver quanto antes.
    O filme tem os seus momentos mas no fundo é uma bela merda, meu rico Shaun of the Dead.

  2. Ah pois, querias Shauns of the Deads! Eu já fico contente quando se matam velhas desdentadas e se usa uma pila de zombie para fazer escalada.

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