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Star Trek (2009)

startrek2009

Existem situações em que somos iludidos por estímulos externos tão fortes que nos toldam a livre arbítrio. Várias vezes vi filmes que me pareceram tão fantásticos que passados 15 minutos já estava eu a dizer que um novo clássico instantâneo ou um nova maravilha da sétima arte tinha chegado. Na maior parte das vezes revi o filme meses depois e apercebi-me que tinha sido enganado. Que fiquei tão ofuscado pelos artifícios visuais e som hipnótico do cinema que nem me apercebi de imediato que aquela suposta obra prima era na realidade uma bela merda.  Por isso esperei este tempo todo para escrever sobre Star Trek, para lavar o deslumbre dos meus iludidos olhos.

Mas o problema desta técnica de crítica assíncrona e preguiçosa é que um os pormenores suculentos e as doce sumo das referências acabam por se dissipar neste cérebro que já viu melhores dias. Do que me lembro não posso dizer que tenha desgostado. Aliás, como o próprio parágrafo introdutório testemunha.

Mas haverá maneira de contornar J.J. Abrams ao falar deste reboot/remake de Star Trek? Obviamente que não. Abrams é um geek de óculos de massa de talento multidisciplinar. É esta abrangência em vários campos do show business que faz dele uma activo interessante em Hollywood. Não se pode dizer que seja o pináculo da indústria cinematográfica, o chosen one, o Messias que vem libertar Hollywood do jugo da boçalidade. Não, longe disso. J.J. Abrams é um tipo que mistura a cinematografia com o design e com o marketing. A sua esperteza saloia de geek da era do ciberspaço faz com que dele saiba tirar aquilo que precisa.  O mestre do teasing e do hype. Ao contrário de toda a indústria Hollywoodiana, diga-se de passagem, agarrada aos costumes de outrora e sem vontade de mudar hábitos. Mesmo sendo enrabada diariamente por malta mais esperta que eles a quem chamam de “piratas”…

O grande trunfo do reboot de Star Trek acaba por ser um artifício narrativo usado em quase todos os episódios da série: uma anomalia espaço-temporal causa um rasgo no time continuum de maneira a que o futuro seja modificado. Ao contrário dos outros episódios em que Spock (ou Data, Picard, Worf, T’Pol, Cpt. Janeway ou a minha preferida Seven of Nine) salvavam o dia e repunham a normalidade, aqui o tempo ficou irremediavelmente fodido, usando a célebre analogia sexual.

Mas Star Trek como filme standalone vale por si. Não é mais uma capítulo, o décimo-qualquercoisa como muitas vezes nos fazem crer. Aliás, o velha guarda Trekkie não quer sequer que haja esta promiscuidade e os novos fãs nem sequer sabem o que é um trekkie. Mas toda a essência da série original está lá, o feeling de paz e amor dos anos 60/70 respira-se ocasionalmente e ficamos a saber que Spock não é virgem. Pelo contrário, monta um nacalhão de carne de fazer inveja em qualquer galáxia. (inserir sorriso babado Ferengi)

A story line é um bocado cliché a arrancar. Um gajo dotado do poder supremo, mesmo sem estudos revela aptidões dignas de um Neo ou, vá lá, Jesus Cristo do espaço, mas que não quer ter nada a ver com trabalho e coisas chatas. Um Spock escorraçado pela sua raça por ser híbrido e as suas emoções fazerem com que arreie fortemente em lombo Vulcano. Histórias de amor de encher chouriça e o cientista louco. Está lá tudo o que é cliché.

Mas ainda assim é um belo filme, um regalo para qualquer fã e mesmo para noobies. Um boa cinematografia, um bela gestão dos timings, emoção e sentimentalista sem pisar o risco do piroso, divertido, agradável. Uma bela maneira de passar o tempo. Gostei do filme e espero por novas continuações. Não sendo uma obra prima, eu também não sou muito esquisito. E para a próxima mais mamas, ok?

2 Comments

  1. Raul

    A Seven of Nine também a minha preferida. Acho que não consegui ler o resto do artigo de a partir do momento em que falaste nela. Distraí-me!

  2. João Carvalhinho

    Bem escrito, e bem descrito. Não fosse o mercado da ficção científica estar seco de ideias novas, o retomar do star trek até me assustou…
    Mas também eu, bruto, gostei bastante do que vi. Gostei da dinâmica da camara, dos efeitos, dos clichés todos da série antiga (meteu tudo tudo tudo e ainda conseguiu fazer o drop do core para a fuga final, quando tudo parecia usado)… assim como quem diz… já esgotámos o passado… venha de lá esse futuro!

    Gostei de alguns pormenores… na cena inicial quando uma bacana é expelida por um buraquinho na nave enquanto grita… e quando a câmara chega cá fora, ao exterior… tudo fica silenciado… foi a cena que mais impacto teve em mim. Essa e da gaija verde… porra aquilo é que é amor ao Sporting!

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