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Let The Right One In (2008)

Longe vão os tempos em que a única coisa que apreciávamos da Suécia eram as gémeas Inga e Helga todas embezuntadas com óleo de coco a lutarem entre si por atenção masculina usando para o efeito um inexistente par de cuecas e os seus viçosos e anti-gravitacionais seios. Eles também produzem um cinema de muito boa qualidade, pautado pela bela cinematografia semi-descolorada e a curtíssima profundidade de campo. Let The Right One In é o filme que impede que Thirst (de Chan-wook Park) seja o melhor filme de vampiros que vi nos últimos 10 anos…

Catalogar este filme como sendo um filme de vampiros é de uma injustiça atroz, porque é daqueles raros filme que originalmente parecem ser destinados a um target de público bem definido, mas que tem uma grande capacidade de fazer o crossover para uma plateia mais ampla. Se no entanto houver quem aflua às salas em busca de sangue, tripas e vampiragem graficamente assassina, pode desde já tirar o seu cavalinho da chuva. Apesar de envolver personagens de cariz vampiresco, este filme foca-se na relação da jovem vampira de 12 anos e o seu vizinho da mesma idade, ligeiramente perturbado de tanto bullying. Mas sim, tem um bocadinho de carnificina para adoçar a boca.

Não sendo de fácil catalogação, Let The Right One In esquiva-se dos clichés e da expectativa do espectador de um modo aparentemente natural, sendo que há obviamente grande mestria técnica e narrativa por trás do espectro do visível. O andamento é lento e seguro. A fotografia nocturna hiper luminosa devido à omnipresente neve é, para nós tugas dos trópicos, um cenário bizarro praticamente imaginário. Os efeitos sonoros são outro ponto de excepcional valor.

Quase a chegar ao fim, a cerca de 3/4 de filme, há uma cena muito importante. Uma cena que por si só causa um misto de repulsa e estupefacção. Mas é também essa cena que transporta o filme para um nível superior, uma cena moderadamente explícita que se transforma no motor do filme. Um mundo de possibilidade abre-se e o nosso cérebro não consegue parar de imaginar o passado daquelas criaturas. Mas é também neste ponto que está a fraqueza do filme. A cena em questão é demasiado delicada. Estamos a falar de crianças, sexualidade, violência, relações perturbadas… O problema é que essa mesma cena acaba por não se perceber muito bem. Eu precisei de voltar atrás e fazer um pause para perceber. Ver isto no cinema não permite que se faça isso.Não, não é um twist… É um addon narrativo.

Optei por utilizar o título internacional em vez do original “Låt den rätte komma in” porque o meu sueco já não é o que era. E o vosso imagino que também não estará lá grande coisa. Como filme não falado em inglês de relativo sucesso que é, Hollywood também já lhe canibalizou os direitos para o assassinar num remake. Pelo que li, os americanos gostaram do potencial saca dolares do filme, mas acharam-no “muito parado” e pretendem introduzir mais acção. Como dizia um tio meu que nunca cheguei a conhecer pessoalmente “Era nascer no cu um pinheiro a quem não sabe dar uso ao dinheiro“…

13 Comments

  1. Olá,
    ainda bem que mencionaste o belo sexo ao dispôr das vossas (masculinas) fantasias opressoras 🙂
    deste o mote para todos os que passam pelo teu blog -sempre consciente em relação à igualdade de género 🙂 – subscreverem as seguinte petições, uma delas decorrente do anúncio da Stout:

    Divulgação PETIÇÃO ONLINE

    Violação constitucional das regras da publicidade e princípios expressos no III Plano Nacional para a Igualdade
    http://www.youtube.com/watch?v=QigGLBsavgo&feature=related

    Para subscrever «Stout is Out» cliquem no endereço abaixo indicado

    http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N1516

    abraço

  2. Adorei este filme. Ainda não vi o Thirst para poder comparar, mas da nova saga vampiresca que por aí pulula este é sem dúvida o melhor, então se fores ver o Daybreakers, meu Deus. Adorei a relação crescente entre o Oscar e a Eli. Não queria estragar o filme a quem não o viu e que poderá ler isto, mas aquele que é o “pai” dela será um Oscar que envelheceu ao longo dos anos? Foi essa a ideia que fiquei. Qual é a cena a que te referes que tiveste que fazer pause? Dá só uma dica perceptível a quem já o tenha visto.

  3. Dica: Baixo ventre despido!

  4. Oh Vera, então e se fosse um anúncio com os papéis invertidos? Achas que os homens iam fazer uma petição? É só preciso um bocadinho de sentido de humor. Em todo o caso estou banido desse site desde que criei uma petição a obrigar o Nicolau Breyner a largar a mão de tanta jovem febra em tudo o que é filme português, por incentivar o género feminino a preferir velhos gordos e (provavelmente) impotentes a jovens trintões na flor da sexualidade… 😉

  5. A do Nicolau assinava, esta não assino 😉

    Não me lembro de ver criada uma petição contra a mítica, ou não, publicidade à Coca Cola Light 🙂

  6. Um magnifico de filme, concordo com a critica que faz. “Let The Right One In” consegue transportar de forma inteligente o lado vampírico desta criança para a nossa realidade, colocando-a em confronto com algumas situações que de certeza muitos de nós já nos interrogamos.
    O que aconteceria se um vampiro tentasse comer alimentos reais? Por que razão têm de ser convidados para entrar na casa de alguém? Como se afastam no horário diurno? Como é que, existindo, ninguém sabe deles? E talvez algumas mais questões são para nós desarmadamente esclarecidas pela interacção de duas crianças á margem de todos. Uma amizade e respeito mutuo, que lhes vai mudar as vidas.

    Eu tenho uma teoria que a tal situação, a cicatriz… significa a marca que resta daquilo que foi cortado…

    Estou para ver como vão os americanos estragar todas as subtilezas deste grande filme.

  7. É brutal, o filme. É tão bom que é ridículo. Ainda não vi o Thirst mas é do senhor do Oldboy (e dos dois Vengeance), por isso só pode ser bom. O filme ainda não tinha saído das salas tugas e já circulavam os primeiros posters do remake amaricano. Aquela gente não tem vergonha nenhuma.

    Já agora, sempre gostei de Stout. Vou beber mais agora que vi a petição idiota (também só agora é que descobri os anúncios por isso esta petição até fez o favorzinho à UNICER).

  8. Ora bem, a cicatriz. Inicialmente pareceu-me outra coisa e depois vi que era cicatriz. Sim, era uma coisa que lá estava e agora já não está. Só se percebe porque a acompanhar a cena ela diz uma frase que parece críptica e se descodifica com a cena em questão. É tão difícil falar à volta do spoiler.

  9. António Silva

    March 9, 2010 at 6:23 pm

    Achei este filme fantástico. Não me lembro da cena que falam porque já o vi há algum tempo, mas achei linda a cena da piscina filmada desde debaixo da água. O Thirst já cá canta e vai ser visto este fds (se a minha filha deixar).

  10. É não se deve falar muito nisso… estou para ver como os hipócritas dos americanos vão dar a volta a essa cena…
    Eu gostei muito deste filme sueco, e cheguei a escrever em embate com o Twilight…
    http://armpauloferreira.blogspot.com/2009/09/cinedupla-twilight-let-right-one-in.html

    Este excelente filme sueco deu-me alento a ver a trilogia Millenium 1, que se diga desde já que é um assombro. E uns bons furos acima deste até e com uma actriz principal impressionante mesmo.

  11. Tb adorei o filme. Está mesmo fantástico.

  12. O filme é de uma delicadeza e subtileza fantástica, difíceis no suposto tema em que se insere. É brilhante a forma c0mo uma história entre duas crianças vai desvendando tanto do nosso imaginário comum, e principalmente como tanto se esconde atrás do que é dito, como pode ser interpretado de tantas e tantas formas. Quanto a essa “tal” cena, a resposta está no comentário de Eli “Eu não sou uma rapariga”. E para mais detalhes, explícita no livro que deu origem ao filme 😉

  13. No meu ponto de vista, o filme ganha o espectador por não tratar uma das personagens principais como uma vampira sobrenatural (enfoque similar no Bakjwi) albergar uma narrativa da relações humanas da sociedade sueca e, em especial do envolvimento dos dois adolescentes. É um filme de conotação dramática acima de tudo e muito bom. Não sei porque me lembrou Ginger Snaps, talvez pelo relacionamento adolescente entre as duas irmãs e o cenário “gelado” canadense. Boa escolha e boa resenha.

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