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Missing in Action (1984) – Versão Betamax

Ser apanhado a ver Missing in Action é como ser apanhado a meio de uma sessão de masturbação, não há maneira de justificar de um modo lógico e coerente o nosso acto. Tudo parecerá sempre uma desculpa esfarrapada dada por um(a) crápula. Mas este filme tem mais elos com essa actividade lúdica tão popular que é o onanismo. Também ninguém admite que vê ou já viu Missing in Action e todos nos sentimos culpados no final. Poderíamos ter aproveitado este tempo perdido para fazer coisas construtivas… Numa altura em que a canonização de Chuck Norris se encontra praticamente concluída, resta-me revelar ao mundo um poderoso segredo perdido nos tempos. Uma verdade tão brutal que ameaça fazer colapsar toda a estrutura institucional do cinema de acção dos anos 80. Afinal Chuck Norris é mesmo uma lenda da bofetada ou é apenas mais um labrego de chapéu de cowboy?

Uma das primeiras aparições cinematográficas de Chuck Norris foi a apanhar violentamente no focinho de Bruce Lee em Fury of the Dragon. Nada de excitante, apenas um parolo americano armado em superior a levar uma antológica carga de porrada de um pequeno asiático que parecia ter o diabo no corpo. Passados uns anos fez uma sequência de filmes de acção fortemente xenofóbicos e com argumentos minimalistas que ainda hoje ecoa na cultura pop, meio mito meio realidade. Mais tarde aparece numa interminável série de TV, insuportável e de inenarrável enfado chamada Walker, Texas Ranger. É com esta série que atinge o estatuto de fenómeno da Internet, por meio das famosas anedotas de Chuck Norris. Numa entrevista que li acerca deste fenómeno, Chuck desculpa-se com modéstia dizendo que apenas Deus Nosso Senhor é capaz de tais actos e não se sente merecedor de tal culto. Obviamente Chuck é um bocado lento e não percebeu a vertente jocosa de todo este culto, o que faz dele ainda mais lenda.

Se hoje em dia Chuck é o herói da Internet muito graças a Conan O’Brian e à sua alavanca Walker Texas Ranger, alturas houve em que Chuck Norris era apenas um imbecil genérico que representava com a graciosidade de um bloco de granito em filmes da Canon Golan/Globus. Missing in Action é o seu filme de guerra do Vietnam dos anos 80, género incontornável para qualquer aspirante a action hero. No entanto, após quase 25 anos, uma contenda vem sido disputada sem respostas concretas, até hoje. Afinal quem teve a ideia de ir buscar prisioneiros de guerra esquecidos ao Vietnam? Rambo ou Braddock?

Reza a lenda que em 1984 James Cameron escreveu uma primeira versão de Rambo 2, no qual John Rambo iria ao Vietnam recuperar prisioneiros que ainda estavam presos desde o final da guerra. Um espião infiltrado da Canon terá ouvido por alto uma descrição deste guião e correu a contar aos seus patrões. À pressa, a Canon arranja um guião (se é que se pode chamar guião àquilo) de contornos semelhantes, mas de produção super merdosa e com um actor capaz de fazer chorar uma audiência da Broadway (ao pontapé). Chuck Norris aparece-nos como Coronel James Braddock numa missão de recuperação de prisioneiros. Numa sequência de cenas mitológicas de contornos profundamente racistas, Braddock desfaz tudo o que tenha olhos em bico para trazer de volta os seus patriotas ex-combatentes.

O filme pouco tem que se lhe diga, mas não podemos negar que apesar de ser fraquinho tem cenas míticas que não abandonam o cérebro, nem mesmo depois da morte. A cena da metralhadora no rio é apenas um exemplo. De notar ainda a inovadora tecnologia acústica usada para dar som a este filme: mono!Insere-se naquela categoria de “É tão mau que é bom”, ideal para noites de estudo dos tempos da faculdade, depois de meia dúzia de garrafões de vinho tinto e sob uma nuvem daquilo que um dos nossos amigos trouxe de Amsterdão. Infelizmente esse tempo há muito que se foi, pelo menos para mim. Se estiverem nessas condições, aproveitem que depois é sempre a descer.

Respondendo à pergunta do início, diria que Chuck Norris é apenas mais um labrego. Bom, eu vou só vestir umas calças e regressar ao trabalho.

4 Comments

  1. eh pá! a escrever sem calças? aonde o Mundo chegou!!

  2. De certeza que a ver hoje iria ser terrível, mas enquadrando o filme no tempo, e na idade que eu tinha quando o vi, era um filme excelente de explosões e mortes. Lá queria saber se ele era um canastrão a representar. Estará sempre no imaginário de um puto da década 80/90, ao lado dos maiores de sempre, Stallone, Van Damme, Seagal e Schwarzenegger. Muahahaaaaha. Os “5” Magníficos.

  3. O Van Damme e o Seagal considero-os estrelas da bofetada dos anos 90. Apesar de alguns papéis nos 80, o seu pináculo foi nos 90.

  4. O esatuto canónico do Chuck Norris impede-me de dizer mal de qualquer um dos seus filmes. E isso incluí o Força Delta, que é capaz de ser o mais racista de todos os filmes que vi nos anos 80. Mas não, o Santo Chuck é um ser perfeito e como tal , não faz filmes merdosos. Ele apenas empresta os seus pontapés e punhos de aço ao celulóide.

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