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Rubber (2010)

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Há coisas que não fazem sentido. Usar a expressão “email de casa” para definir uma conta de correio electrónico que pode ser acedida em qualquer parte do mundo é uma dessas coisas. Roupa para cão, gravatas, distribuidores automáticos de tostas mistas, strapons, double dongs e religião. E podia continuar o resto do dia. No entanto aprendemos a conviver com elas e se para nós já é normal ver um filme como Pretty Woman em que uma puta de rua, cheia de Sida, se transforma numa princesa ao encontrar o amor sob a forma de um abastado cavalheiro que não interessa pelo seu passado, porque não acreditar que um pneu pode ganhar vida com poderes telepáticos com o intuito de ser um serial killer?

Suspension of Disbelief é um conceito ao qual Hollywood se parece ter agarrado ultimamente, como a última esperança de um leproso moribundo. O que é, afinal, essa Suspension of Disbelief? Bem, é apenas um nome finório (sem tradução feliz para português) para o mecanismo mental que usamos quando assistimos (ou lemos) obras de ficção. O nosso cérebro tem que colocar todos os seus conceitos de lógica e realidade de parte para que possamos apreciar coisas que sabemos de antemão serem impossíveis, como pessoas a voar, civilizações extraterrestres ou os discursos de campanha eleitoral. É um processo natural que só tem nome porque as pessoas têm que se entreter com qualquer coisa. Mas quando estreou o último Indiana Jones toda a gente reagiu como se deve reagir a um filme daqueles, com a fúria de mil demónios. Então, como que por magia, todos os sites, foruns, blogs e redes sociais foram invadidos por Marias Amélias feridos porque não há direito que falem assim do filme porque temos que fazer o tal processo de Suspension of Disbelief . E de repente um processo mental involuntário passou a ser considerado uma habilidade, algo que precisamos estudar e responder a perguntas complicadas para provar que sabemos perfeitamente separar o abstrato do concreto, o real do imaginário, que não somos burros nenhuns. E para provar que não somos burros vamos até prescindir do sentido de humor para não haver cá confusões.

Voltando a Rubber. Um filme que fala num pneu serial killer que tem poderes de telecinese e obsessão sexual por uma rapariga pode ser considerado uma idiotice sem sentido que certamente se revelará numa perda de tempo. Mas o certo é que nada está mais longe da verdade do que dizer que Rubber é reles, simplório e idiota. O filme é uma obra de puro artesanato cinematográfico, um brain child de Quentin Dupieux.

Começa com um monólogo para meter todo o cinema que chamamos de “qualidade” em perspectiva, para que percebamos que determinado assunto não tem necessariamente que fazer sentido para que possamos apreciar a sua abordagem num filme. Depois o filme tem a sua própria audiência dentro do próprio filme que chama a atenção para o nível de surrealismo, sendo esse próprio artefacto surreal. Gera-se ali uma cadeia de ação, reação, uma experiência científica que não pode funcionar por estar manipulada, uma caldeirada deliciosa que nos faz repensar toda o o cinema, toda a dinâmica narrativa e os seus artefactos desde o início dos tempos até ontem à tarde. O pneu assassino é apenas um subterfúgio, um veículo, para criticar toda a indústria cinematográfica, a comunidade cinéfila e até uma elevada dose de autocrítica. Tudo isto no meio do mais sóbrio minimalismo.

Tecnicamente é um filme bem decente, com fotografia de qualidade  e um trabalho exemplar ao nível dos locais de filmagem. Os actores não são top notch, mas neste caso é justificada essa opção. O gore é de qualidade e em abundância, e com isto sei que vou convencer meia dúzia.

E funciona? Tem os seus pontos altos e os seus fracassos. Eu acho não ser necessário ser tão óbvio em relação a certas questões, como que a fazer o possível para que as pessoas percebam a mensagem. Mas gostei, é um filme em contraciclo com tudo o que se tem visto por aqui, um ovni escaganifobético, um filme que pode muito bem tornar-se um clássico, dependendo da gestão que Quentin Dupieux faça da sua carreira. E da sorte, claro.

3 Comments

  1. Este é daqueles que ando há tempo com a existência dúvida cinéfila do séc XXI: download ou não download? Esta critica inclinou-me para o sim! Gracias!

  2. À pala desta critica, pedi o filme “emprestado” a um amigo meu de Caxias. Realmente fiquei admirado, gostei do filme!
    Desde que vi o Piranha à uns tempos atrás que não tinha ficado tão satisfeito por perder 1:30m a olhar para a tv.
    Sim sr. por acaso, aqui neste blog até se descobrem umas coisas porreiras.

  3. Por acaso? Nada disso, amigo Bruno, isto é uma ciência exacta. Nada aqui aparece por acaso.

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