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Midnight in Paris (2011)

Midnight in Paris

Oh l’amour, toujours l’amour! Paris, a cidade do amor, das luzes, da boémia intelectual, da cultura, das artes e de tudo o que o departamento de marketing da agência para o Turismo parisiense consiga enfiar nos cartazes. Paris, cidade realmente fascinante que conheço bem e que gosto com contido entusiasmo. Paris, cidade onde Woody Allen realizou a sua última extravagancia intelectual  com um índice alucinogénico elevado, mesmo para ele, onde actores já fugiram de dentro dos filmes para a realidade, viajantes do tempo já conheceram as máquinas orgásmicas do futuro e onde até já pudemos ver na primeira pessoa o funcionamento da zona do corpo humano responsável pelo orgasmo  masculino. Do filme já vamos falar de seguida, da cidade só acho que tem um defeito: está cheia de franceses…

Tornou-se comum ver um filme de Woody Allen por ano. Tornou-se comum criticar este realizador, porque já não é o que era, porque está a perder a genialidade, porque se repete, porque tem uma visão do mundo muito intelectual para a pobreza cultural dos tempos em que vivemos. O certo é que temos que começar sempre com uma noção, a noção de que este homem é um génio. Um realizador que já ganhou lugar na História do cinema por muitos séculos vindouros, um realizador que tem um estilo próprio, inconfundível. É verdade que há altos e baixos na sua carreira, é verdade que por vezes as temáticas são repetidas, mistura e volta a dar. Mas é isto mesmo que é o estilo Woody Allen. Ele não está à espera de fazer finalmente o filme da vida dele, de realizar uma obra que lhe traga fama e glória. Ele está a ser um realizador que faz o que quer, que tem absoluta liberdade criativa e nenhum estúdio lhe poderá algum dia impingir explosões e perseguições em alta velocidade.

É verdade que há muitos bons realizadores a fazer este tipo de cinematografia, mas no cinema mainstream de alta exposição não me consigo lembrar de muitos. E os que existem realizam pouco, cedem ocasionalmente ao capital Hollywoodiano para fazerem de tarefeiros em obras vulgares, caem em desgraça, enchem-se de ego e explodem. Woody vai andando, ano após ano, década após década, caminhando de modo seguro e firme em direção à eternidade.

A carreira de Allen está num ponto em que não me atrevo sequer a vir para aqui dizer se o filme é bom ou mau. É uma tradição ver um filme de Woody Allen, são sempre 90 minutos cirúrgicos, com um humor muito refinado, uma imaginação sempre fervilhante, diálogos incomparáveis, estética característica e aquela sensação agradável de que tudo pode acontecer. É um bocado teatral, mas sou da opinião de que o cinema está a perder a sua teatrialidade e isso empobrece-o. Woody é analógico, oldschool, artesão, conservador. Não é algo que eu queira para todo o cinema, mas é algo que aprecio ocasionalmente. Para desenjoar.

Há no entanto coisas que gostei menos neste filme. O controlo de brancos demasiado amarelo, a dar a Paris uma tonalidade solarenga que não tem é algo que desgostei. Eu sei que é opção estética, até porque se abusa destes tons, mas não consigo abstrair-me do céu cinzento chumbo que permanentemente empresta as suas cores à vidas dos parisienses. Prefiro também os actores desconhecidos às grandes estrelas. Fazem um melhor papel e o fenómeno do typecasting não me baralho o cérebro.

Para o final do Verão lá estaremos para ver o que faz Woody Allen em Roma. O casting não me agrada, isso vos garanto, mas a cartola de Woody está sempre apinhada de coelhinhos.

4 Comments

  1. Parabéns pelo texto, desta vez com menos retóricas e mais conciso (e humilde) na reflexão, a modos que confessional, sobre o cinema de Woody Allen. Gostei e o quanto concordo.
    Faz mais artigos destes, sff.

  2. pior que ver este filme (e se odiei) foi ler este texto… QUE SECA. onde está o Xunga? DEVOLVAM-NO

  3. Xunga, a parada do amarelo não é uma pegada da narrativa? Tipo como fotografias antigas em sépia, para discriminar as cenas de viagem para o passado.Gostei do texto, uma abordagem diferente para um filme diferente.

  4. Acho que o cinema de Woody, e penso que já assim o podemos chamar, é realmente ímpar, principalmente para um realizador que se propõe a fazer um filme por ano. É muita coisa, se pensarmos bem. Poucos têm a sua extensa filmografia, e, principalmente, poucos têm a sua qualidade. Dos que vi, dele, que foram bastantes, o único que menos gostei foi o antecessor de Midnight in Paris – You will meet a tall dark stranger….achei mesmo fraco e as personagens muito banalizadas, enfim não havia nada de novo nem surpreendente, talvez estivesse presente o toque de Allen, mas, mesmo assim, muito pouco…

    Quanto ao Midnight in Paris, acho que é uma obra bastante peculiar, traz muito de Allen, num formato totalmente diferente do que nos havia habituado, talvez seja um Woody Allen com consciência das adversidades da vida e de que é preciso perceber que tudo é relativo, nada será totalmente perfeito, pelo menos de um modo universal.

    cumprimentos,
    cinemaschallenge.blogspot.com

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