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The Force Awakens: J.J. Abrams, o anti-Lucas

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Andava Chewbacca numa mercearia e escolher fruta para uma festa de Natal que iria organizar em casa quando a seu lado se assomou uma criança. Sorrindo para a gentil besta peluda, a criança abriu a boca e deixou sair um sonoro e esganiçado “grawwrrwwaurr”. Chewbacca rolou os olhos e perguntou. “Gostaste do filme puto?”. O miúdo meio atordoado de ver Chewbacca a articular palavras humanas responde “Humm… Filme?”. “Sim, o filme!”, diz Chewbacca a ficar irritado com a perda de tempo. “Não sabia que também havia um filme. Só tenho tua máscara, os Legos, os bonecos, as t-shirts, as meias, as cuecas, um tapete, mobiliário, a decoração do quarto, o relógio, papel higiénico, papel de alumínio, frangos assados do “Reino da Frangália” com embalagem em carbonite, aqueles novos sacos para apanhar a merda de cão, o shampôo que uso quando acaba o bom, serviços de louça, faqueiros, uma fiambreira que faz os sons de Tie Fighters para a frente e dos X-Wing para trás, o casaco do meu cão, a capa do telemóvel da minha mãe, as chinelas de quarto do meu pai, uns balões muito fininhos de marca control que minha mãe tira do fundo da gaveta para quando o Sr. Anacleto da farmácia lá vai a casa entregar o Ben-U-Ron, as novas embalagens de Ben-U-Ron e um conjunto de agricultura macrobiótica para ambientes árticos que o meu pai comprou porque estava com 40% de desconto”.

Tudo o que está de errado com Star Wars e a aproximação dos média ao fenómeno está descrito nesta pequena introdução. Nos dias que correm é impossível separar Star Wars do merchandise. É verdade que foi uma inovação de Lucas e o verdadeiro cash cow de Star Wars, mas sendo um filme deveria ser separado enquanto produto de cinema nestas épocas de estreias e que à cinefilia dizem respeito. A cada vez que se fala de Star Wars as pessoas, usando roupa temática, dizem que têm grande colecção, que gastaram muito dinheiro, estantes para a bonecada e depois falam superficialmente do filme indo sempre embocar na parte em que o Star Wars lhes deu vontade de comprar merdas.

Numa já hiperconsumista e rentável estratégia de vender bonecos entra a Disney. Aproveitando o balanço do expectativa, usando extensamente o product placement, pagando a opinion makers, a Disney aumentou exponencialmente a estratégia e vender bonecada é agora função do filme e da sua estratégia de monetização. Agora, além de haver uma extensa gama de bonecada oficial em 10 qualidades diferentes, a Disney cede os direitos a todos os que queiram pagar, queimando a marca. Todas as publicidades na actualidade têm uma temática Star Wars, música, personagens, o que der, o que se puder pagar. Há espátulas Star Wars, caraças. ESPÁTULAS!

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Ora, meus amigos, isto não é cinema. Isto é aquela falha na psique humana que as máquinas do marketing usam para nos hackar o cérebro e fazer o tal “Inception”, criar as necessidade que não existem. Não é por ter a casa cheia de bonecos que se é fan de Star Wars: Os Filmes.

Não sou colecionador nem consumidor de merchandise. Tenho outros vícios e respeito quem tenha este. Só que fico incomodado quando essa vertente absorve tudo o resto, que se fossem inseparáveis ou obrigatórias.

Não queria aqui entrar em grande detalhe em relação ao filme, ficará a dissecação para depois. Não foi o que esperava, talvez por ingenuidade da minha parte. Talvez tenha que o rever, não consegui entrar no espírito do filme, senti-o demasiado infantil e simplório no seu âmago. Penso, porém, que J.J. Abrams é uma espécie de anti-Lucas, a antítese de tudo o que representa Lucas para o Universo da Saga. Lucas sempre foi um explorador de ideias novas, sempre a querer inovar e a criar novos conceitos, criaturas, ambientes e cenários. Foi no início o seu ponto forte e acabou por amadurecer demais e apodrecer nas prequelas. Um defeito por não ter injectado na produção alguém que fosse o equilíbrio, como daquelas cenas em que aparece um demónio num ombro e um anjo no outro, mas sem anjo. Lucas perdeu o controlo. A sua imaginação, ou a contratação de staff imaginativo, sempre foi uma imagem de marca.

Disney Crew e  J.J. Abrams são o exacto inverso. Os personagens estão criados, testados e vendem. A chave é inovação zero, por precaução. Pode ser uma boa estratégia, não sei. Não temos versão de Lucas para contrapor. Essa questão pode funcionar a favor no filme do ponto de vista estético, por que constrói o visual em cima do que Lucas já testou e já foi aprovado pelo público. O problema principal deste filme surge no facto de J.J. também ter essa abordagem na narrativa, sem inovar, sem expandir o universo. Usa fórmulas decalcadas directamente dos anos 80 sem as ramificar um pouco. Podemos dizer que entretém, é um Star Wars à moda antiga, não queima a retina de CGI. Não acrescenta nada de novo também.

Será apenas o ponto de partida, uma base para a exploração de uma nova dimensão? Talvez, não sei. Para já fica o amargo sabor a recauchutagem.

2 Comments

  1. Comentador Online

    December 20, 2015 at 10:16 am

    Palmas para esta crítica! Não vi o filme, mas vou ver, depois de passar o período de histeria de gente a ir para o cinema bater palmas e chorar com a banda sonora e ir a correr para casa escrever no Facebook como é um “filme perfeito”. Só que não há pachorra para a puta do merchandising e e da shelf porn. Ora, a juntar às espátulas Star Wars, eu VI, ninguém me contou, que na minha empresa um chefe comprou um boneco do BB8, e num dia de trabalho particularmente fodido foi para a empresa brincar com aquilo. Sim, quando toda a gente estava pálida e a suar do esforço, aquele otário estava a brincar com um boneco! (e ainda se lastima genuinamente como ninguém da equipa lhe parece dar respeito…)

  2. Pois. Para já não me apanham a ver isto numa sala de cinema.

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