Anatomy of a Murder (1959)

A meio do apocalipse epidémico  2020, 75% dos elementos do podcast Nas Nalgas do Mandarim viram-se isolados nos seus palacetes. Bloqueados dos prazeres do mundo, da magia do cinema em sala, das lojas de roupas amaricadas que tanto prezam e dos restaurantes que enfeitam tão bem os itens que temos no frigorífico. Ficar em casa também tem as suas vantagens, pouco contacto com humanos que na sua grande maioria são a espuma da ruminância. Menos eu, ali entalado no trabalho de sol a sol, sozinho, rodeado de máquinas e sem calças. Mas não eram só coisas boas, também batia ocasionalmente aquela solidão e a nostalgia da vida social. 

E eis que um dia a Mónica Freitas, a quarta Nalga que opera nas sombras mexendo os cordelinhos do controlo, sugere um clube de cinema. Como aqueles clubes do livro dos filmes Halmark, onde donas de casa entediadas e fartas do seu vibradores, double dongs e fistmaster 3000 discutem semanalmente um livro à volta de uma mesa a beber vinho branco que acaba invariavelmente em confissões de fantasias sexuais, onde trocariam de bom grado aquele traste que lá têm em casa por um gangbang com a equipa de basquetebol do Sudão numa cabine comboio embaciada de pecado que atravessa os alpes cobertos de neve. 

E assim foi. Regras foram estabelecidas e das quais falarei no final deste texto. O Carlos foi escolhido como o primeiro a ter a honra de escolher um filme. Entrou pela sua wishlist adentro qual mineirinho das Minas da Panasqueira, e trouxe-nos uma gema escondida que tinha em standby. Anatomy of a Murder, um filme de 1959 realizado pelo enfant terrible Otto Preminger. Diga-se porém, em abono da verdade, que foi o primeiro e último filme bom que escolheu até  à data neste mui nobre clube de cinema.

E assim foi inaugurada uma nova era nos anais da História do mundo, e bem inaugurada. Anatomy of a Murder é um filme denso que lida com as reviravoltas da justiça, um drama de tribunal onde a eloquência e a retórica parece estar acima das leis e só importa ganhar. Não interessa quem é culpado, quem morreu e quem foi violado. Ah pois é, a história roda em volta de uma violação de uma jovem senhora, que também levou um carradão de porrada que a meteu negra. Mas isso não interessa. Só interessa saber onde estão as suas cuecas e se a violação se justificou porque ela afinal poderia ser uma porquita que se insinuava e um homem não é de ferro. De morais à moda antiga, é daqueles filmes que será destroçado pela cultura de cancelamento assim que eles cheguem ao fim do youtube à procura de blackfaces e apropriamentos culturais. É um sinal dos tempos e os filmes têm que ser vistos à luz do seu tempo.  Ainda assim, aos olhos de hoje, incomoda um pouco como a violação é colocada num plano de pouca importância.

É um filme emocionante que acaba frouxo com um final feito à catana do género “ah é verdade, fim!”. Mas o segmento de tribunal, com pouca justiça e a apostar na flamboiância linguística, acaba por compensar. E assim termina um filme, sem ninguém por quem torcer, sem a certeza de que o resultado do julgamento nos possa agradar, sem underdogs, sem tubarões.

As Regras:

Sob o lema “Não alargues apenas a anilha nalgal, alarga também o teu conhecimento enciclopedial“, este clube vem no sentido de ajudar estas acomodadas batatas de sofá a sair da sua bolha de segurança. Quais são as regras deste clube?

1. O filme não pode conter mais que uma mamada feita a pessoas do mesmo sexo, sendo o sexo masculino.

2. O filme não pode conter mais que uma mamada feita a pessoas do mesmo sexo, sendo o sexo masculino.

3. Cada um escolhe um filme alternadamente que nenhum membro do clube tenha registado no letterboxd. De viu mas esqueceu de registar, azar do caralhinho.

4. Só é obrigatório ver o filme se tiver menos que 120 minutos. A partir daí é opcional. Mas quem não ouvir é achincalhado de preguiçoso e a sua heterossexualidade é colocada em causa.

5. Depois de escolhido o filme, os membros têm 7 dias para o ver e avaliar. Deverá ser registado e classificado no Letterboxd.

6. Deverá depois ser discutido entre os membros e gravada uma flash review alusiva ao filme.

Regras em propostas e em análise:

– De modo a que os membros não se tornem umas bestas vingativas, quem sugere o filme deverá vê-lo em menos de 72 horas de modo a que não escolha uma bomba nuclear só para chatear os seus colegas porque ficou melindrado com o filme anterior.

– se não houver consenso em relação a uma determinada avaliação ou filme o conflito deverá ser arbitrado por sua excelência o Dr Kuka Veludo, conseguidor e especialista em astroquineticocinema.

Podem seguir a lista aqui:

https://letterboxd.com/knoxvillept/list/nalgas-film-club/

Esta é a lista atual até ao momento. A primeira coluna são os filmes do Carlos, depois da Mónica, depois do Miguel e finalmente os filmes bons do Pedro.