Para não sermos chamados de velhos do restelo, temos de vez em quando de espreitar o que se faz no cinema moderno, mas a verdade é que a nossa missão principal é abençoada pela luz de Lucio Fulci e pelo terror dos anos 80 como ponto de partida. Por isso mesmo, hoje trago-vos The Nest (1988), uma autêntica cereja no topo do bolo da Concorde Pictures, a mítica empresa do rei dos filmes de série B, Roger Corman.

É um clássico creature movie que nos transporta para uma pequena cidade do interior americano, com todos os ingredientes habituais: o xerife, o presidente da câmara e o típico grupo de miúdos que já têm 18 anos mas ainda não saíram de lá. A paz desta comunidade é interrompida por uma praga de baratas geneticamente modificadas que se tornam carnívoras e sádicas. É o terror dos efeitos práticos e mecânicos no seu auge, sem grandes orçamentos mas com uma criatividade visual incrível.

A realização ficou a cargo de Terence H. Winkless, que adaptou o romance homónimo de Eli Cantor. Reza a lenda que ele limpou o rabo a quase todo o livro e aproveitou apenas o conceito geral e a capa, aquela imagem icónica de uma senhora em lingerie a ser atacada por uma barata gigante que, embora não apareça tal e qual no filme, serve de isco perfeito. O grande desafio da produção foi lidar com baratas a sério; os atores não tomavam propriamente “banho” com elas, mas tinham de estar na vizinhança destes bichos, o que tornava tudo muito mais visceral e claustrofóbico.

Ao contrário de A Mosca, que saíra dois anos antes com uma aura mais psicológica e romântica, The Nest foca-se no choque puro e no impacto humano sobre a natureza. Estas baratas assimilam outras criaturas, transformando-as em mutantes horríveis, o que reflete bem o medo das experiências científicas irresponsáveis que se sentia na época. É um filme de nicho, ideal para ver numa tarde de verão e que, apesar de não ter o “sexo” a que Corman nos habituou, compensa largamente pelo valor do horror.

Se quiserem dar uma oportunidade a esta pérola, o filme existe em Blu-ray, porque dificilmente o vão encontrar em qualquer plataforma de streaming convencional. Vale a pena pela nostalgia de um tempo em que as baratas assassinas eram o nosso maior pesadelo genético.


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