Ora viva, amiguinhos. Depois de algum tempo ausente, continuo a sentir necessidade de falar para o vazio, de partilhar as minhas opiniões irrelevantes convosco e com o mundo (e com os milhares de bots de IA que andam na net a catar o que as pessoas dizem para construir modelos de machine learning e algoritmos de mau cinema). Hoje quero falar-vos do filme The Bride que, na minha cabeça, estava muito ligado a uma tentativa de aproveitamento do sucesso com aquilo que se andava a falar do Frankenstein do Del Toro. Um aproveitamento cultural quase ao estilo Asylum/Syfy.

E cumpre-me esclarecer publicamente, em formato de auto repreensão e vergonha, que estava errado. Eu pensava que isto fosse uma tentativa de recriação da Noiva de Frankenstein num estilo muito próximo do Del Toro e também do género dos anos 30. Se não viram ainda a duologia original, vejam, porque são filmes lindíssimos. A versão original era mais crua, mais direta aos temas centrais. A Noiva de Frankenstein original é um filme icónico; aquele penteado da noiva que foi homenageado neste novo The Bride durará para sempre na cultura popular.

Andava a deixar o filme para trás por achar que era uma “banhada”, muito por aquilo que os meus amigos do Letterboxd diziam, que me dá a ideia que lhes falta coração ou não estavam no mesmo modo que eu. Mas a verdade é que este The Bride é um filme lindíssimo, maravilhoso, incrível. Isto começa 100 anos depois da história do monstro de Frankenstein. Tem uma cena inicial narrada por Mary Shelley e apresenta-nos logo a noiva, ainda num estado plenamente humano. O filme mistura chavões do terror. Desde a maneira como a populaça reage a estes monstros, o cientista mau (aqui uma cientista má, com níveis de cinzento) ou mesmo o monstro (uma pessoa sintética construída pela perfídia do seu criador).

O filme diverge da fonte quando nos apresenta o Frankenstein e a sua noiva numa espécie de Bonnie and Clyde do universo da Universal Monsters. Ela é uma mulher super independente, com muito fogo interno, personalidade e perseverança. Instinto de personalidade e superioridade intelectual. Eles acabam por se sentir ligados, não só pelo amor da atração física, mas por se identificarem um com o outro e com as dores um do outro. Decidem começar uma viagem juntos: a viagem da perseguição aos monstros que eles fogem, reagindo sempre violentamente. É uma relação simbiótica muito visceral.

A realizadora, Maggie Gyllenhaal, dá às suas obras várias camadas. Como diria o Shrek, é uma cebola de várias camadas. Ela tem uma bela sensibilidade para a realização e coloca-nos a empatizar com aqueles que até agora tinham sido os vilões e alvos dos nossos ódios e agruras. A cinematografia é ótima e o filme até passa por um momento de dança, um bocado ao estilo do que vimos em Sinners. O elenco é o que se costuma dizer “stacked”. Jessie Buckley, uma amplitude gutural brutal nas artes da representação. Faz uma gama incrível de performances. Na altura da transformação, sai-lhe um líquido da boca que fica permanente na cara, como uma tatuagem muito fixe. Christian Bale, muito bem caraterizado (embora não se tenha deformado na vida real desta vez). Annette Bening, Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Penélope Cruz e por aí fora. Não falta talento.

O filme é ótimo. É para românticos, ou para pessoas que gostam de ver as áreas do romance no seu estilo não-hollywoodesco, não-rom-com perfeito, mas no seu significado original. Se virem e se arrependerem, é porque são uns labregos do caraças em cinema. 


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