Um em cada quatro aficionados de cinema de terror diz que o seu subgénero preferido é “Samara Weaving encharcada em sangue da cabeça aos pés no poster”. Já a contar com este gosto adquirido da sua base de fãs, estreou recentemente numa plataforma, o filme Over Your Dead Body, realizado por Jorma Taccone, a mesma pessoa que há uma dezena de anos nos mostrou o filme MacGruber, um recauchutado SNL de média piada.
Continue readingFalo várias vezes do meu trauma cinematográfico com o Western tradicional. Isto aconteceu porque o meu pai era grande fã quando eu era criança, e, como qualquer miúdo pré-adolescente, tudo o que os pais gostam é mau. Cresci influenciado negativamente por esta presença constante do meu pai a sugerir-me Westerns e eu, ignorante, imberbe e burro que nem um poste, acabava por recusar. Tenho tentado ao longo dos tempos fazer as pazes com este género, e sinto que estou sempre em défice. Na minha coleção de filmes, aglomerei a parte do Western e decidi começar a dar mais atenção ao Western Tradicional. E virei-me para este Winchester ’73. Não é um Spaghetti Western, aquele de que costumamos falar por vezes, que são exploitations das coboiadas tradicionais americanas que foram alimentados por Sergio Leone. Este é um daqueles Westerns clássicos, protagonizados por John Wayne, Gary Cooper, ou por Henry Fonda, ou por, sei lá, Clint Eastwood na sua fase americana, ou realizado por John Ford. É esse tipo de Western.
Continue readingPoderemos verdadeiramente escrever sobre um filme no qual adormecemos cinquenta por cento da sua duração? A resposta é sim, desde que a causa do adormecimento tenha sido o facto de o filme produzir um efeito sonífero capaz de aniquilar um cavalo, e não porque estamos realmente com sono. E neste caso, arrisco-me a dizer que existe carga sedação equina para pelo menos duas manadas de cavalos selvagens.
Continue readingRecentemente estreou A Múmia de Lee Cronin, um filme que, logo à partida, foi obrigado a agrafar o nome do realizador no título para que a malta perceba que isto é uma obra de distinta filigrana com assinatura em cama de veludo e não apenas mais uma bosta semi-liquida fumegante saída do “Dark Universe” dos monstros da Universal. Esse universo cinemático que tem andado por aí às voltas com falhanços atrás de falhanços, a começar pela versão de A Múmia com o Tom Cruise de que, felizmente, já ninguém se lembra.
Continue readingNos anos 80, havia uma cassete mítica que estava envolvida numa névoa de lenda, que era o Faces of Death. Era meio cassete normal, meio lenda urbana, em que os miúdos sussuravam entre si, sempre em secretismo nervoso, acerca do filme. A lenda dizia ser uma sequência de clips de pessoas, a morrer mesmo mesmo a sério. Como ninguém tinha visto ainda o conteúdo, especulavam-se as coisas mais bizarras de sempre: pessoas a serem comidas por crocodilos a infelizes a caírem do avião sem paraquedas e espalmarem-se no chão à frente do cameraman.
Continue readingUma das ferramentas mais utilizadas pelos cinéfilos, quase sempre de maneira instintiva, é o pedigree. O pedigree é a fé cega que nos faz correr para o cinema só porque gostámos de dois ou três filmes anteriores de um realizador ou porque o nosso ator fetiche está no cartaz. Vamos abençoados pelo histórico dessa entidade. E foi precisamente esse malfadado pedigree que me levou a Bad Biology, de 2008. Estava no Letterboxd a avaliar o famoso Frankenhooker quando reparei que o realizador, Frank Henenlotter, tinha esta obra mais recente.
Continue readingHá uns tempos tropecei numa relíquia do cinema italiano chamada Rabid Dogs (Cani arrabbiati, no original). Trata-se de uma obra realizada pelo mestre Mario Bava, mas que por artes mágicas da burocracia e do azar, esteve 20 anos enfiada numa gaveta antes de ver a luz do dia. Um filme de 1974 que é pura essência destilada de violência. A premissa é simples e rasteira, mesmo à moda daquela época: um bando de criminosos faz um assalto, a situação dá para o torto com a polícia e os malandrins põem-se em fuga. Para garantirem que não levam com chumbo nas nalgas a meio do caminho, decidem raptar uma rapariga e invadem o carro de um sujeito que levava uma criança doente (e a dormir) no banco de trás. A partir daí, é vê-los a obrigar o homem a dar ai chinelo dali para fora numa corrida desenfreada, cujo único objetivo da gatunagem é sobrevivência a todo o custo.
Continue readingHá uma certa pureza na forma como a malta olhava para o cinema no final dos anos 90. Hoje, qualquer drama adolescente se resolve com uma ida ao psicólogo, três posts no Instagram a chorar por “autoestima”, um post a anunciar a cura da doença psicológica seguido de um colapso mental e uma receita de ansiolíticos. Antigamente não. Se eras uma miúda esquisita na escola, a tua única salvação era vestir-te de preto da cabeça aos pés, ouvir New Metal e esperar que o apocalipse te viesse buscar antes do teste de matemática. É esta nostalgia melosa do pós-grunge que nos traz hoje aqui.
Continue readingCorriam os primeiros anos da década de 80 quando eu, num dia bem passado a explorar as lojas de discos, ou “discotecas” como eram chamadas, dei de caras com umas capas que me deixaram impressionado. Pertenciam a uma banda de heavy metal chamada Iron Maiden. Como qualquer miúdo fascinado, tentei logo convencer os meus pais a comprarem-me os discos. A resposta era sempre um redondo e pragmático: “Não.” E atenção, não o faziam por serem maus pais. Faziam-no porque, na verdade, cá em casa as finanças não estavam para grandes luxos e os discos eram artigos caros. Rapidamente convenci uns amigos a comprarem os álbuns e pedi-lhes emprestado, num “aluguer de longa duração”. Quem nunca? O objetivo era claro: assimilar a obra e fazer a derradeira comparação para ver se a capa era, de facto, tão boa como o conteúdo. Todos sabemos a resposta, é sim. A partir daí, passei tardes da minha infância a ouvir nova e vibrante música enigmática e a tentar desenhar sem sucesso as capas icónicas. Mal eu imaginava que esses tempos mágicos iriam durar uns bons 35 ou 40 anos. E que, num futuro que então parecia muito distante (em pleno 2026), eu continuaria com o mesmo entusiasmo. Só que agora, acompanhado pelo meu filho.
Continue readingNo Natal de 1986 fiz-me sócio de um videoclube barato, daqueles em que se pagava joia e mais de metade das prateleiras ainda era beta e dramas indianos. O catálogo era curto, mas para um miúdo que só conhecia dois canais de TV (e um deles sempre a dar ópera e teatros a preto e branco) a ideia de pôr um filme para trás, rever e voltar a rever era basicamente ficção científica doméstica. Entre os campeões de aluguer havia Os Deuses Devem Estar Loucos, Gente Gira (apanhados ultra-racista na África do Sul que hoje deve estar enterrado no tribunal de Haia) e, na secção terror, um título que piscava o olho: C.H.U.D., um acrónimo com pontinhos e cara de filme proibido. Nessa altura não havia 600 milhões de filmes de terror por semana; víamos tudo e, tal como as crianças de 3 anos, gostávamos de tudo.
Continue readingHá coisas que explicam muito sobre o estado de decomposição da nossa civilização. Hoje , um sujeito liga a televisão e leva com reality shows de saloias mimadas a chorar por causa de unhas partidas ou labregos sensíveis que fazem depilação a laser no rego do cu. Antigamente não. Antigamente, o entretenimento servia-se frio, com sabor a pólvora e suor de quem não toma banho desde que o Muro de Berlim caiu. É esse amor imperfeito por coisas que, racionalmente, não merecem ser amadas, que nos mantém vivos. Uma espécie de masoquismo cinéfilo, como levar com elétrodos no escroto e ainda pedir um cigarro no fim. Murphy’s Law, de 1986, é o exemplo perfeito dessa patetice sublime. O argumento é, possivelmente, o pior de sempre. É um filme que faria qualquer cinéfilo de 2026 corar de vergonha e enfiar a cabeça na areia, mas que a nós, calejados pela lama dos videoclubes, nos enternece.
Continue readingÀs vezes temos de raspar o fundo do barril. Quem cozinha sabe perfeitamente do que falo, é naquele fundo da frigideira, na comida que parece já estar muito passada e enegrecida, que reside todo o sabor do cozinhado. E no cinema de género, a lógica é rigorosamente a mesma. Specters (ou Spettri, no original), uma obra italiana de 1987 que surge já na fase terminal do cinema de exploração transalpino, quando o febril vigor da locomotiva do cinema europeu começava a ficar com anemia. Tempos houve em que a Itália dominava o mundo com produções de baixo orçamento, fosse terror, ação ou ficção científica, servindo para ir disfarçando a larica de cinema entre as grandes produções americanas. Eram mestres em meter toda a carne no assador.
Continue readingOs filmes de zombies deviam ter a sua própria árvore genealógica, um ramo independente de todo o resto do cinema. Podemos pegar em qualquer filme que exista e aplicar-lhe um arco narrativo de mortos-vivos e o filme ficaria inalterado. Imaginem o Titanic, a bordo aparecia uma infeção e o barco começava a ser atacado por hordas imensas, focadas na obliteração de toda a carne viva. O navio batia no iceberg na mesma e a partir daí tínhamos o mesmo exato filme, com a vantagem de ser bom e todos aqueles zombies ficarem a boiar, ao estilo de Guerra Mundial Z, até chegarem a terra em cima de um detrito e darem origem a uma sequela. Uma daquelas portas onde a protagonista original deitou o seu corpanzil narcisista, deixando o seu amado perecer à agonia de uma morte lenta por hipotermia no Atlântico norte. Estes hipotéticos zombies de uma epidemia a bordo do Titanic podiam perfeitamente chegar à costa de França ou dos Estados Unidos cheia de infetados para continuar a história.
Continue readingHoje temos um título bombástico com pedigree e genealogia real, um filme obscuro de 1994 chamado Scanner Cop. Realizado diretamente para vídeo, que era o streaming da altura. Embora não seja uma sequela direta da trilogia Scanners iniciada pelo David Cronenberg, aproveita o conceito daqueles tipos que têm poderes especiais por causa de uma medicação hormonal usada em testes nos anos cinquenta. O efeito secundário foi que as crianças nascidas dessas mães apareceram com o poder de serem scanners, o que na prática é uma mistura do poder dos Jedi com a capacidade de magoar as pessoas e lhes rebentar a cabeça, bem ao estilo daquela imagem de marca do primeiro filme de Cronenberg, onde a cabeça de um cavalheiro explode em pleno discurso.
Continue readingTêm visto o Wishmaster (1997) ultimamente? Pois eu revi há uns tempos e bateu logo aquela nostalgia misturada com um “olha o que estamos a perder”. Mal arranca a sequência de abertura, sente-se logo o quanto o cinema de terror tem vindo a mudar, e não necessariamente para melhor. Estamos atualmente entregues ao “terror elevado” (sic), que, para mim, é só um tipo de terror mais presunçoso e armado ao pingarelho. Este filme pertence à era dourada do final dos anos 90, em que começaram a aparecer alguns efeitos digitais, mas em que a malta ainda se divertia a sério com coisas horríveis, sem culpas, sem complexos e algum sadismozinho típico da primeira época da Internet.
Continue readingContinuando sob a égide do requeijão de baixo orçamento, hoje trago-vos uma daquelas pérolas que só o videoclube e o passar dos anos conseguem elevar ao estatuto de divindade. Falo de Action U.S.A., um filme de 1989 que é o exemplo perfeito de como a falta de dinheiro, quando misturada com uma total ausência de noção e um talento absurdo para a adrenalina, resulta em ouro puro.
Continue readingPara não sermos chamados de velhos do restelo, temos de vez em quando de espreitar o que se faz no cinema moderno, mas a verdade é que a nossa missão principal é abençoada pela luz de Lucio Fulci e pelo terror dos anos 80 como ponto de partida. Por isso mesmo, hoje trago-vos The Nest (1988), uma autêntica cereja no topo do bolo da Concorde Pictures, a mítica empresa do rei dos filmes de série B, Roger Corman.
Continue readingOra viva, amiguinhos. Depois de algum tempo ausente, continuo a sentir necessidade de falar para o vazio, de partilhar as minhas opiniões irrelevantes convosco e com o mundo (e com os milhares de bots de IA que andam na net a catar o que as pessoas dizem para construir modelos de machine learning e algoritmos de mau cinema). Hoje quero falar-vos do filme The Bride que, na minha cabeça, estava muito ligado a uma tentativa de aproveitamento do sucesso com aquilo que se andava a falar do Frankenstein do Del Toro. Um aproveitamento cultural quase ao estilo Asylum/Syfy.
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Por vezes temos que usar este mecanismo do podcast que ninguém ouve, blogs que ninguém lê, como uma espécie de psicólogo barato, em que fazemos sessões de 15 minutos para exteriorizar velhos e recalcados traumas. O que vos vou contar hoje aconteceu quando eu tinha uns 10, 11 ou 12 anos. Tudo começou numas férias em família na Figueira da Foz. O nosso parque de campismo era junto a um café que tinha uma peça de tecnologia inovadora: um leitor de VHS ligado a uma televisão pequenita. Foi lá que fui apresentado ao First Blood – Part II. Foi uma espécie de overdose de Sylvester Stallone; só havia três ou quatro cassetes a rodar e eu fiquei fascinado com o herói não cantado dos Estados Unidos a resgatar amigos no Vietname.
Continue reading*pling*, caía a mensagem. “Tens que ver isto. Parece uma reencenação do Fury Road”, dizia aquela mensagem telegráfica enviada em estilo de emergência, como que um aviso da proteção civil dos filmes que não podemos perder. Larguei o frango que estava a depenar e, sem lavar as mãos, tratei dos formulários e burocracias para o aluguer no Sr. Joaquim. Ainda me entretia a ver as últimas fotos da Sydney Sweeney em pelota e nem consegui acabar de fazer o quizz “melhores mamas dos anos 70”. O filme chegou rápido, como que ajudado por uma brisa divina a acelerar a sua entrega. Carreguei no play e, confortavelmente deitado no meu sofá, comecei a ver. Da cozinha ouço gritos. “Pai, já são quase 10 horas! O jantar ainda não está pronto?”. Ora foda-se, nunca mais me lembrei…
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