CinemaXunga

Desde 24 de Junho de 2003

The Wonder (2022)

Florence Pugh, coitadinha, é enviada para uma aldeia irlandesa dos anos 50 do séc XIX. Enfermeira, mulher de ciência, vai ajudar a investigar o caso de uma miúda que não come há 4 meses. “É Deus, um milagre! Alimenta-se do maná dos céus!”. Os cabecilhas da aldeia salivam já de antecipação com a possibilidade de uma canonização, um santuário em honra daquela santinha que é alimentada por Deus. Catedrais, cultos diários, um convento dedicado à santinha, hotéis, lojinhas a vender harmónicas e pífaros da Santa Anna alimentada por Deus. Mas Pugh quer evitar a morte da menina, metida num turbilhão de infinita densidade católica. Será capaz a ciência de bofetear a mais católica de todas as eras e zonas geográficas.

Continue reading

Kimi (2022)

Continua a grande dificuldade dos argumentistas do cinema moderno se adaptarem a novas tecnologias. A necessidade de manter os conceitos do cinema tradicional, para não alienar a clientela, e associar-lhe toda a parafernália de tecnologias atuais nas suas tramas é a tarefa mais dolorosa para argumentistas. É muito comum estarmos a ver um filme em que se ignoram completamente facetas tecnológicas da vida atual. A escrita foca-se numa linha de fuga muito concreta para evitar distrações. A malta de humanidades, que escreve os filmes, não sabe usar as tecnologias que tem, quanto mais compreender a complexidade mastodôntica que lhes dá forma dentro das paredes, na atmosfera, no espaço, debaixo das cidades, em centros de dados e dos seus domadores que operam nas sombras. Mas isso não os impede de tentar, com resultados mistos. Se o casual utilizador de telemóvel para ver fotos da ex-namorada em bikini no whatsapp consegue engolir as instruções narrativas, o geek de gama média rebola os olhos para cima e sai imediatamente do transe da suspensão da descrença.

Continue reading

Deadstream (2022)

Há dois artifícios narrativos de que não sou grande fã, o found footage e os esquemas manhosos que agora se vêem em todos os filmes de terror para retirar o telemóvel do filme. Da primeira apenas não gosto do formato, que após alguns filmes se torna repetitivo e os 90 minutos de duração parecem 180. Mesmo com todo o contorcionismo e mortais empranchados que se injetam nesse molde, é uma agonia para chegar ao fim, parece que as almofadas do sofá se vão transformando lentamente em xisto pontiagudo. Em relação ao artefato de remover o telefone da narrativa, é uma incapacidade dos argumentistas de se adaptarem aos tempos. Claro que é muito mais difícil resolver os aborrecimentos de ser perseguido por uma família de mortos vivos abusadores sexuais canibais mutantes quando não temos telemóvel. Mas ainda mais difícil seria se não tivéssemos energia elétrica, automóveis, antibióticos, capacidade de locomoção bípede ou utilização do córtex cerebral primário. Ou que ainda não tivéssemos saído da água e fossemos amibas perseguidas por Mosasauros. Falei sobre isso aqui (Artigo: Telemóvel, o terror dos filmes de terror.).

Continue reading

The Black Phone (2022)

Andava aí um filme de terror, que apareceu a voar baixinho por debaixo dos radares, a fazer furor nas salas. Sou daquelas pessoas que dá logo dinheiro a um gajo de aspecto drogado para apanhar o autocarro porque perdeu a carteira ou compra toneladas de produtos em esquemas de pirâmide, mas nisto dos filmes fico muito apreensivo. “Quem são estes agora para me convencerem que o filme é bom? Na volta é malta que acha que Inception é uma matrioska de conceitos, ideias ou situações em vez da criação de algo.” E quando finalmente decidi ir vê-lo ao cinema, depois deste processamento todo,  já tinha saído de sala. Há 4 meses. 

Continue reading

The Reckoning (2020)

Tinha roupa para passar a ferro e acabado de obter acesso a uma conta da Filmin. Embirrei que tinha que a aproveitar. O Sr. Joaquim que tudo fornece nunca me deixa mal, mas ali senti o apelo burguês de consumir um conteúdo pago. Aquele permanente sensação de que é pago e é caro e, logo, melhor. Como os pacóvios que pagam dois ordenados mínimos por um telefone e depois nem sequer lhe instalam apps nem usam demasiado porque têm medo de estragar. E eu, de ferro de engomar na mão, carreguei no play deste Neil Marshall que me piscava o olho sedutor e caprichoso como uma ninfa de Homero, sedento de me ver rebentar os costados nas escarpas rochosas da ilha da morte de onde empinava o rabo.

Continue reading

Quando ver filmes de Steven Spielberg?

Ver um filme de Steven Spielberg é como comer cogumelos apanhados por um amigo bêbedo, pode ser uma extraordinária experiência gastronómica ou pode resultar na perda do fígado e subsequente morte. Assim, com o intuito de acabar com este risco à saude pública mundial, a comunidade científica ligou-me em massa no fim de semana. “Pedro”, imploravam chorando, “Consegues fazer os cálculos de modo a que se consiga erradicar a morte por Spielberg do mundo”, dizia o Alfredo da WHO em Nova Iorque.

E eu lá fui pegar nos tubos de ensaio e microscópios. Trabalhei o fim de semana sem dormir, consegui enviar os dados para um rede de super computadores das principais universidades do mundo para serem mastigados, e consegui hoje ter o resultado desse trabalho.

Apresento o gráfico anual de perigosidade de ver filmes de Spielberg. Atenção que o eixo das ordenadas representa a probabilidade de tirar prazer da visualização e o eixo das absissas representa o mês.

Decidi não patentear o estudo, podem usar nos vossos papers.

Pedro Cinemaxunga – PhD, DoP, ATM e BBC

Anon (2018)

Cinema não é apenas os filmes que planeamos, aguardamos e vamos entusiasmados ver em sala. Não são apenas os filmes que compramos ou alugamos no Sr. Joaquim e que assistimos em casa, numa espécie de ritual, o escurinho ideal, aquela almofada preferida e às vezes, em dias de batota, uma tacinha de torresmos. Não são apenas os dates para ver filmes detestáveis que toleramos porque o ambiente é propício ao coito. Cinema por vezes também são aqueles filmes que apanhamos a meio, numa insónia de hotel, que têm tantos atores conhecidos, têm meios de produção generosos e algum talento por detrás que nos perguntamos como nos escaparam. Anon é um exemplo destes últimos e a resposta à pergunta “Como é que me escapou?” é “Porque é o pior filme de sempre”.

Continue reading

Lista dos primeiros filmes que foram “O Primeiro Filme a usar CGI”

the lawnmower man virtual reality bad movie cgi

Há imensos relatos de filmes que foram os primeiros a usar CGI. Durante os primórdios da tecnologia digital, os estúdios correram para usar este modernismo que lhes permitia usar como arma de arremesso mercantilista este soundbyte gostoso. Todas as pessoas cuja idade aconselhe um toque prostático ou cuja menopausa avance por si adentro como um incêndio em mato seco têm esta experiência. 

Continue reading

Howl (2015)

Howl (2015) Official Trailer - Vidéo Dailymotion

O cenário é familiar, um grupo heterogéneo de pessoas confinadas num espaço sem saída e sem esperança à mercê de uma sanguinária ameaça. Um a um, coitados, vão perecendo às mãos/garras/facas/ameaça genérica. O herói, improvável, reforma-se de anos de letargia para se revelar o perfeito anti-“ameaça genérica”. A miúda, que sobreviverá seja qual for o reboliço onde a metam, grita em apuros ao mesmo tempo de ostenta a sua permanente hidratação genital pelo herói. Mais do que ser salva e fugir ao cenário dantesco onde se encontra, ela quer ser inseminada, procriar e viver na sagrada comunhão do matrimónio com o herói recém vitalizado. Neste caso são lobisomens e pessoas presas numa carruagem de comboio no meio da mata.

Continue reading

Willy’s Wonderland (2021) – Radio Cinemaxunga

A última insanidade de Nicolas Cage é uma espécie de John Wick na Rua Sésamo onde demónios assassinos se apoderam do Ferrão e do Popas para serem trucidados pela força demolidora que apenas um autista consegue ter. Não é o filme perfeito, tens os seus problemas técnicos por inaptidão e fracote na representação, mas ainda assim dá uma bela tarde de sábado.

Butt Boy (2019)

Ao fim da primeira semana em encarceramento forçado, todas as tarefas se tornam repetitivas. Todos os dias são cópias de menor qualidade dos dias anteriores, a perder cor, e passam a um ritmo estonteante, contrastando com nossa agora permanente catalepsia. Voltando lentamente a cabeça na direção da janela, os dias passam numa cadência estroboscópica, hipnótica. “Que dia é hoje?”, perguntam os membros do quarteto cordas semi-decomposto que me fala do outro lado da sala. “Sei lá!”respondo. “Terça? Domingo? Junho? 1986?”. E os filmes que vi? Vi mesmo ou imaginei? Vou aqui atravessar-me pela minha memória com quase total garantia de que vi mesmo este filme, que ele existe, e vou falar-vos de Butt Boy. 

Continue reading

Freaky (2020)

https://cdn.cinepop.com.br/2020/09/freaky_2.jpg

Seria de esperar que o remake de Freaky Friday fosse igualmente merdoso e cheio de requeijão teenager, mas de facto somos premiados com 10 minutos iniciais que revelam ao que vamos: sangue, tripas, refinado requeijão pós-moderno e Vince Vaughn ofensivamente transexual. Coisas, portanto, maravilhosas!  Um epílogo ao estilo do saudoso Santa’s Slay (2005) com título em português “A Matança de Natal” na chamada “Escola de Títulos Miguel Ferreira das Nalgas”. Uma nova aproximação ao clássico troca corpos que não sendo muito diferente dos outros em estrutura e narrativa, é bem mais divertido e sangrento. 

Décimo melhor do ano

Society (1989)

https://hips.hearstapps.com/es.h-cdn.co/fotoes/images/cinefilia/peliculas-sexo-violencia/society-brian-yuzna-1989/123413317-1-esl-ES/Society-Brian-Yuzna-1989.jpg

Uma das minhas muitas missões de vida consistiu em varrer a filmografia de Brian Yuzna de cabo a rabo devido a um amor profundo pelos dois primeiros ReAnimators, esses soft reboots de Frankenstein e Bride of Frankenstein. Ainda que o primeiro não seja dele. Só o terceiro, que é falso. Uns espanhóis pegaram no franchise e refizeram um Prison Break Reanimator com o Yuzna e o protagonista. A missão não foi totalmente terminada, falta-me Beneath Still Waters e Amphinious 3D que devem ser super bons. Isto tudo para dizer que passei há uns anos pelo Society (1989) e fiquei apaixonadão.

Continue reading

The Wolf of Snow Hollow (2020)

Por vezes ficamos a fatiar fiambre no Facebook, a pedinchar sugestões para um filmezito antes de ir para a cama, que nos enleamos em tramas supérfluos de listas de celebridades que fazem branqueamento anal ou dos tipos de melão que melhor curam a SIDA. E entretanto passam duas horas e vamos para a cama sem filme. Neste tempo perdido na névoa do “doce fazer nenhum” podíamos ter visto o Wolf of Snow Hollow, o novo filme de Jim Cummings, o jovem hiperativo reativo emocional psicótico realizador/actor/”faz tudo no seu próprio filme” que fez um brilharete com a curta Thunder Road que depois deu a longa Thunder Road.

Continue reading

Nalgas Film Club – Uma flor que brota no deserto

Anatomy of a Murder (1959)

A meio do apocalipse epidémico  2020, 75% dos elementos do podcast Nas Nalgas do Mandarim viram-se isolados nos seus palacetes. Bloqueados dos prazeres do mundo, da magia do cinema em sala, das lojas de roupas amaricadas que tanto prezam e dos restaurantes que enfeitam tão bem os itens que temos no frigorífico. Ficar em casa também tem as suas vantagens, pouco contacto com humanos que na sua grande maioria são a espuma da ruminância. Menos eu, ali entalado no trabalho de sol a sol, sozinho, rodeado de máquinas e sem calças. Mas não eram só coisas boas, também batia ocasionalmente aquela solidão e a nostalgia da vida social. 

Continue reading

Technoboss (2019)

Através de uma sucessão de pesquisas mal feitas e erros de correção ortográfica dou de frente com este filme. Choque frontal, como numa recta do Alentejo, sábado para domingo. Já o tinha nos filmes que queria ver, não se enganem, mas entretanto esqueci-me. Que bom que a sacrossanta mão do destino me encaminhou novamente para ele com o seu vento místico e as invisíveis correntes de ar do destino, porque amei do coração do John From. Não sabia, no entanto, nada a acerca deste filme. 

Continue reading

Tenet (2020)

Mais um almoço sozinho, mais uma lata de atum. Enquanto o gato lambe as gotas de óleo de girassol que respingam da lata de atum marca branca do Lidl por entre os seus dedos tensos, um homem enfurecido olha pela janela. Lata vazia, dedos esbranquiçados da tensão. O som do ronronar é interrompido por um suspiro furioso e asmático deste senhor em fúria. Já a semana não tinha começado bem, quando a alfândega lhe confiscou o conjunto de espadas Kill Bill que tinha encomendado de Singapura, agora começam a chegar críticas negativas a Tenet. “Quem é que esta gente pensa que é?”, pensou. “De certeza que é bom, quem o viu e é boa gente gostou. De resto são haters. Os mesmos que criticaram o Dunkirk e o Inception. Sempre os mesmos. O Dunkirk ainda não vi, mas não passa deste mês. O Tenet vejo amanhã, já tenho bilhete.

Continue reading

Pulp Fiction e os silêncios desconfortáveis (1994)

O último fim de semana de Novembro de 1994 foi o normal para a época. Tinha uma namorada nova que partilhava comigo os prazeres da cultura e de ver o nascer do sol nas janelas embaciadas pelo ofegante bafejar do desejo e do êxtase sensorial da descoberta. Sábado à noite, jantar no chinês. A comida misteriosa que aprisiona a cidade com o seu apelo exótico, pedida em números. O procedimento repetia-se. Jantar, café, cinema, barzinho, discoteca e ver nascer o sol nas condições supracitadas. Nesse fim de semana fomos ver o Pulp Fiction. Pulp quê? Não interessa, só estão 3 filmes em sala e os outros dois já os vimos.

Continue reading

Netflix e Dave Chappelle

Resultado de imagem para dave chappelle netflix

A minha rotina de standup: Um jovem agricultor, um serralheiro mecânico e um decorador de interiores entram num bar. Pergunta o serralheiro “O que é que sexo anal e comer a sopa têm em comum em Fermentelos?”.Uma criança de 5 anos que se encontrava a lavar pratos pergunta “O que é sopa?”. Todos riem e o agricultor diz “Vá diz lá! O que têm em comum?”. Responde o serralheiro “São ambos obrigatórios antes de ir para a cama”. Todos voltam a rir muito e o decorador diz indignado “Sou de Fermentelos e não sei se concorde”. E pergunta o puto que estava a lavar pratos “Então porque é que não te consegues sentar?”. As freiras desatam a rir e os miúdos do orfanato batiam palmas se as algemas o permitissem. Um alce vestido inteiramente de cabedal deixando apenas o anus exposto faz o barulho de um peido com a boca e as gargalhadas são tão ensurdecedoras que até os surdos aprisionados na cave as ouvem.

Continue reading

Ma (2019)

Ma (2019)

Produtora Blumhouse, 9 horas da manhã, segunda feira

O Jason Blum, proprietário da produtora, passeia-se numa trajetória oval em frente a uma comprida mesa de reuniões. Mãos atrás das costas, inclinado para a frente, expressão de profunda preocupação. Ao longo da mesa, na ponta oposta, estão algumas pessoas responsáveis pelo filme Ma. O silêncio aterrador é entrecortado por passos pesados e secos do Sr. Blum que, de repente, se detém. Respira fundo, mete uma mão na testa como a segurar a cabeça e vira-se de modo teatral para a mesa. Um movimento lento e predador. Ao fundo ouve-se um “gulp!” mas Blum não percebe quem foi. Teria que acelerar o movimento e rodar os olhos, algo que não faria como profissional do drama. Mãos na mesa, acompanhadas por um bater que ecoa pela sala. Levanta os olhos, fixa a pessoa imediatamente ao fundo, na ponta da mesa. A tensão prestes a ser quebrada não alivia ninguém.

Continue reading
« Older posts

© 2022 CinemaXunga

Theme by Anders NorenUp ↑